O maquilhador

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Logo em 1989, nas primeiras eleições pós-redemocratização, uma figura de fora da política formal teve impacto na campanha: Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula da Silva. No tempo de antena de Collor de Mello, que venceria a corrida ao Planalto, Miriam acusou Lula de exigir um aborto quando soube que ela estava grávida. Não só Miriam não abortou como Lurian Cordeiro da Silva, a filha mais velha do hoje presidente da República, é fervorosa apoiante do pai e assessora de um deputado do PT. Porém, o estrago estava feito: num país que herdou o conservadorismo católico português e ainda reproduz a intolerância evangélica americana, o candidato de esquerda não se recuperou.

Em 2006, Francenildo Costa protagonizou o chamado Caseirogate. Antonio Palocci, o ministro das Finanças de Lula, negou, desmentiu, voltou a negar e reforçou o desmentido de que teria participado em reuniões suspeitas e festas com prostitutas numa mansão de Brasília. Mas Francenildo, o caseiro da mansão que dá nome ao escândalo, disse em CPI ter visto, sim, Palocci no local. Na sequência, foi quebrado o sigilo bancário de Francenildo supostamente pelo ministério liderado por Palocci, o que levou à demissão deste num escândalo que impactou a eleição de meses depois, ganha, ainda assim, por Lula.

Se em 2016, o presidente de jure Michel Temer ainda alimentava esperanças de ser candidato a presidente de facto em 2018, perdeu-as de vez ao ser gravado às escondidas pelo empresário milionário Joesley Batista a, alegadamente, pedir para subornar Eduardo Cunha, o protagonista do impeachment de Dilma Rousseff.

E, às vésperas da eleição de 2018 que o coroaria presidente, o deputado Jair Bolsonaro passou a ser escrutinado como nunca na imprensa que descobriu a dona Wal do Açaí. Vendedora de Açaí em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a dona Wal estava, no entanto, nomeada como assessora no gabinete de Bolsonaro, em Brasília. O caso revelou a prática, também seguida pelo primogénito de Jair e hoje candidato presidencial Flávio, de “rachadinha”: o detentor do cargo indica colaboradores, estes nem aparecem no gabinete, mas o salário, pago pelo povo, é rachado entre ambos.

Wal, Joesley, Francenildo e Miriam já têm, pelo menos, um sucessor em 2026. É Agustín Fernández, o maquilhador uruguaio de Michelle Bolsonaro que partiu para o ataque contra Flávio, apontado por Jair como candidato em outubro em detrimento, entre outros, da ex-primeira-dama.

No podcast IronTalks, o maquilhador acusou Flávio de não se conectar “com a empregada, com o vendedor ambulante, o ego e a vaidade são maiores do que a própria causa, ela [Michelle] é a única que consegue herdar 100% do capital político do Bolsonaro e ainda trazer pessoas de fora”. “Eu não vou perder tempo a apoiar sabendo que a gente vai sofrer uma puta derrota para o Lula, para mim a eleição está perdida”, concluiu o maquilhador.

Agustín, ao fazer cair a maquilhagem de união no clã Bolsonaro, uma espécie de clã Murdoch, é a prova de que no Brasil a política também é feita fora das quatro linhas da política formal.

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