O ‘malouf’ Tunisino: o legado de ‘Al-andaluz’ presente na alma da Tunísia

Abdeljelil Larbi

Centro de Estudos Árabes - Universidade de Coimbra

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Nos bairros antigos de Tunes, nos cafés e nos salões que exalam o aroma das flores e do jasmim, ecoam melodias que levam o ouvinte numa viagem através do tempo. Trata-se do malouf, a arte musical ancestral que representa a referência comum das alegrias e das celebrações culturais dos tunisinos.

O malouf não é apenas um estilo musical passageiro, mas sim um registo histórico vivo que resume séculos de intercâmbio cultural entre as margens do Mediterrâneo e que se manteve um dos pilares proeminentes da identidade cultural tunisina.

Das margens de Al-andaluz às metrópoles da Tunísia

As raízes históricas do canto malouf remontam às sucessivas migrações andaluzes para o Norte de África, que atingiram o seu auge após a queda de Granada, em 1492, e a expulsão dos mouriscos no início do século XVII. Estes migrantes trouxeram consigo as suas artes, a sua poesia e a sua saudade da Península Ibérica. A palavra malouf deriva de “al-ma’luf” (habitual, familiar), expressão que designa arte criada pelos sentimentos e transmitida de geração em geração.

As cidades tunisinas acolheram esta arte musical recém-chegada, e foram fundadas as “cidades do malouf” em Tunes, Kairouan, Bizerte e Sfax, além da cidade de Testour, que foi construída pelos andaluzes para ser o bastião principal desta arte. O malouf não permaneceu exclusivamente andaluz, mas misturou-se com os costumes locais e as influencias rítmicas otomanas, dando origem ao “malouf tunisino” com a sua identidade própria e independente.

A arquitetura da nuba: a alma dos ritmos tunisinos

A essência artística do malouf manifesta-se na sua estrutura rítmica rigorosa e bela, conhecida como nuba que é uma grande peça musical e vocal construída sobre um único “maqam musical”, e o repertório tradicional tunisino inclui 13 nubas.

A nuba tunisina segue uma sequencia rítmica precisa que começa devagar e solene, acelerando gradualmente até atingir o clímax no final. A nuba começa com o Istiftah (abertura), uma introdução musical sem ritmo, seguida de um ritmo pesado, e depois al-biat, em que o cantor improvisa poemas eloquentes, seguidos de canções de diferentes métricas, separadas por melodias suaves, para que esta viagem musical termine Al-khatam, o clímax de entusiasmo e ritmo acelerado.

O conjunto musical: um diálogo entre o Oriente e o Ocidente

O conjunto musical (o takht) do malouf tunisino evoluiu significativamente ao longo do tempo. No início, o coro baseava-se em instrumentos andaluzes e tradicionais antigos, como o “rabab tunisino” e o alaúde tunisino (de quatro cordas), acompanhados por instrumentos rítmicos como o tar e os percussores.

Com o início do século XX, o conjunto abriu-se aos instrumentos orientais e ocidentais, passando o violino, o qanun, o violoncelo e a derbouka a ser pilares fundamentais que conferem ao malouf uma profundidade harmónica contemporânea sem comprometer a sua autenticidade.

Letras do malouf: entre a dor do amor e o ascetismo do misticismo

Os temas do malouf oscilam entre dois mundos: o mundo das Muwashahat escritas em árabe clássico e o das Azjal escritas em dialeto andaluz ou tunisino antigo. Os temas poéticos variam, incluindo:

o galanteio e a descrição da natureza: o canto à beleza do amado ou a saudade da beleza da natureza andaluza perdida;

os louvores místicos: o que é conhecido como “malouf do avô”, uma vez que esta arte se ligou fortemente às confrarias sufistas (como a Ordem Shadhiliya), tornando-se companheira das invocações e súplicas religiosas em ocasiões espirituais, como o nascimento do Profeta e o mês do Ramadão.

O malouf hoje: um pulso vivo que não morre

O malouf tunisino prova, dia após dia, que não é um património de museu exibido apenas em ocasiões oficiais. Nenhum casamento ou celebração tunisina, especialmente nos rituais da kharja ou da watiya, está completo sem que as vozes entoem as suas melodias.

Graças às escolas de música e a uma geração de criadores que herdaram esta arte de pai para filho, como o talentoso artista Ziad Gharsa, o malouf continua a sua viagem através das gerações, com duas identidades: uma andaluza e uma tunisina.

O malouf hoje: das ruelas de Tunes aos palcos de Lisboa

Em conclusão, o malouf tunisino prova, dia após dia, que não é um património de museu, mas sim uma arte renovada que habita o coração das ruelas tunisinas nas suas alegrias e celebrações. Graças aos seus criadores, esta arte continua a sua viagem que atravessa gerações e se abre ao mundo.

Num evento historicamente inédito, Lisboa, prepara-se para acolher um dos mais interessantes diálogos culturais (dia 1 de junho pelas 17h30, na Fundação Oriente) será então realizada uma noite musical excecional que reunirá, pela primeira vez, músicos e cantores de Tunísia e Portugal, num encontro que mistura a autenticidade do malouf tunisino com a saudade do fado português. Este espetáculo único não se limita a fundir os maqams com as melodias, mas demonstra ao mundo como a música pode ser uma ponte universal que liga as duas margens do Mediterrâneo, transformando a nostalgia comum numa linguagem humana deslumbrante e histórica, gravada no palco.

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