Impossível acreditar num modelo de Economia Social e no Cooperativismo sem assumir o enorme papel e a extraordinária influência de Agostinho da Silva. Este ano comemoramos os 30 anos da CPLP e os 120 anos do seu nascimento. Nestes dias em que tudo parece estar em causa – o valor do Dinheiro, das Instituições, do Trabalho, das Famílias ou do Amor –, temos o dever de não desistir de pensar, mesmo que esse exercício seja arriscado e nos possa pôr em causa. É sempre o preço a pagar, aliás Agostinho da Silva sabia-o bem quando saiu de Portugal por não querer assinar a chamada “Lei Cabral”, documento que autenticava a não-pertença ou simpatia pelo Partido Comunista ou a Maçonaria. Foi para o Brasil, onde permaneceu 25 anos –, não por ser comunista ou maçon, nunca o foi, foi apenas um franciscano sem hábito –, mas pela liberdade que não lhe poderia ser negada de poder sê-lo um dia se o quisesse.
Não sabemos o que irá acontecer no futuro. Talvez não haja um único ser humano que o possa prever com propriedade, mas aconteça o que acontecer, é preciso estarmos do lado do Bem e da Liberdade. E da economia de mercado que se faz da soma de vontades e ambições, não da perda da maior de todas as conquistas que o capitalismo nos trouxe.
Não há virtualidade no pensamento único ou em modelos monolíticos. Em pleno conflito mundial, Agostinho da Silva escreveu e publicou os seus célebres Cadernos e numa das suas edições, creio que em 1943, pensou acerca do cooperativismo. Também aí tudo parecia nebulosamente impossível.
E o filósofo da Liberdade e do Quinto Império, o pensador da identidade portuguesa que se definia como um homem medieval do século XII, comparou aí o cooperativismo ao melhor da Natureza e ao mais bonito das épocas primitivas quando o resultado da caça revertia também para os velhos que já não podiam caçar, a lógica era retributiva e fortalecia a comunidade – como o cooperativismo.
Não me posso queixar. Em Torres Vedras, a nossa Caixa Agrícola tem mais de metade dos depósitos da comunidade. Existe uma relação muito forte e estrutural. Acredito ter legitimidade para afirmar que, muitas vezes, as pessoas não aderem ao cooperativismo por ignorância. O âmago das cooperativas passa pela participação no bem comum, ir a assembleias, ser sócio ou cliente de Caixas Agrícolas tem vantagens óbvias – juros e comissões mais baixas e lucros redistribuídos para a comunidade.
O Bem pode ser um negócio rentável. O cooperativismo nasceu da necessidade sentida por pequenos agricultores que não podiam crescer, juntaram-se e fizeram acontecer, do impossível nasceu a oportunidade. A produção juntou-se ao consumo e um caminho que não existia e que se tornou real. Agostinho da Silva era um homem radicalmente livre. No Brasil fundou centros de pensamento e várias universidades, como a de Brasília. Defendia que, ao contrário dos ventos que apontavam à especialização, todos os saberes estavam interligados.
Curioso o paralelismo com Edgar Morin. Agostinho com um sentido mais metafísico, Edgar com uma linha mais sociológica, mas os dois numa procura clássica, de cidadãos atenienses a habitar no futuro. Para Agostinho da Silva a liberdade era indiscutível, assim como a guerra contra a pobreza. Em quem apenas sobrevive não poderia existir, o que nos distingue verdadeiramente como humanos plenos. Por isso, ao longo da sua vida, distribuiu o dinheiro que ganhava a quem tinha fome. Fazia-o como símbolo do que nos faltava, do que precisávamos de resolver. A conquista do ócio representava a possibilidade de pensar no que não existia, o progresso dependia disso e da consciência coletiva de um caminho que é ou deveria ser cooperativo..
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