O mais belo horizonte

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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O dia ainda não nasceu em Belo Horizonte e terei hoje, já daqui a pouco, o enorme privilégio de estar no painel que encerrará o World Coop Management 2026, um dos maiores e mais representativos acontecimentos do mundo cooperativo. Estarei no painel com os presidentes da Concamex e do Sicredi , bem como Ariel Guarco, presidente da Aliança Cooperativa Internacional.

Muitos temas têm sido discutidos e muitas perguntas feitas. Num mundo disruptivo e virtual, como valorizar a proximidade? Num tempo desmaterializado, como acentuar o valor dos balcões, do continuar a aposta numa relação olhos nos olhos? Numa altura em que o investimento social é tratado como despesa, de que forma podemos contrariar esse falso paradigma? Três questões que me são caras.

Escreverei nas próximas semanas sobre algumas destas interrogações, mas deixo-lhe, ao sabor da pena, o que me ocorre quando penso na última das perguntas. Tem sido uma tendência crescente tratar o investimento social como uma despesa estéril, o que é um elementar erro de gestão. Uma obsessão pelo retorno de curto prazo que tem o potencial de poder destruir o ativo mais valioso de uma instituição financeira: a confiança. No setor cooperativo é ainda mais grave a tentação de sacrificar a eficiência social para inflacionar artificialmente os resultados dos balanços. Quando tal acontece estamos a sabotar-nos e a colocar em causa a sustentabilidade e a sobrevivência no longo prazo. O social e o financeiro não competem entre si, coabitam.

No cooperativismo, os resultados estão interligados com a capacidade de sermos socialmente eficientes. A nossa estabilidade financeira não surge apesar do nosso compromisso social, mas por causa dele. É uma fusão perfeita, um círculo virtuoso, o que verdadeiramente nos distingue. Para isso dependemos da convicção, do acentuar da nossa cultura e da coragem de não abandonarmos os nossos princípios à primeira revoada de vento. Fundamental também, para esta fusão, é a democracia corporativa: processos democráticos, transparentes e inclusivos reduzem drasticamente a assimetria da informação.

É uma enorme vantagem competitiva. Enquanto a banca comercial tenta adaptar as suas estruturas às exigências do ESG (Ambiente, Social e Governança), as cooperativas têm a vantagem histórica de já terem nascido com essas premissas. O impacto social (S) é o nosso core business e a governança (G) está assegurada pelo nosso modelo de decisão democrática - o que o mercado hoje exige é o que praticamos há décadas. Um dos maiores problemas do nosso tempo é o absentismo, a dificuldade de reter talento. Ora, a gestão baseada num propósito ajuda a mitigar e até a resolver o problema. Os profissionais do futuro não procuram apenas um salário, mas um significado para as suas vidas. Quando as pessoas compreendem que a sua produtividade diária se traduz num impacto na comunidade, o alinhamento é total. Registamos maior produtividade, menos baixas médicas e uma retenção que protege o nosso capital intelectual.

Numa cooperativa financeira o nosso cliente é o dono. Um concorrente tradicional pode baixar os preços temporariamente, mas não consegue competir com o sentimento de pertença. Novos negócios nascem da própria recomendação da comunidade que confia na instituição. O capital social gera, organicamente, capital financeiro. Este é o segredo das cooperativas que marcam o tempo e parecem imunes aos riscos que ameaçam o horizonte.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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