O livro

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

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Recebi há tempos, “pendurado” numa mensagem de WhatsApp, um vídeo espanhol muito interessante e bonito sobre a importância dos livros e da leitura.

Pertenço a uma geração em que um livro era um bem precioso e acarinhado. Era a primeira coisa que nos ocorria quando queríamos obsequiar um familiar ou um amigo. Dar e receber livros era uma prática social comum, pelo menos entre aquelas pessoas cuja situação económica permitia o que por muitas outras era considerado um luxo. Para estes, ler só não seria uma atividade rara graças às carrinhas cinzentas das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que percorriam incansavelmente as então péssimas estradas do nosso país, levando a aldeias remotas, através do empréstimo de livros, o benefício da cultura.

Não me vou pronunciar sobre as evidentes qualidades do vídeo a que me referi: concentro-me numa breve passagem da narrativa que o acompanha. Em certo ponto faz-se a seguinte afirmação: “A ignorância é tão grande que os ladrões não roubam livros.”

Ao ler esta frase, veio-me à memória um episódio que testemunhei na Guiné-Bissau, julgo que em 1995. Encontrando-me no país para proferir uma lição na Cerimónia de Entrega dos Diplomas da Licenciatura em Direito, concluída no ano letivo anterior, na Faculdade de Direito local, o conselheiro cultural da Embaixada de Portugal, jornalista prestigiado, fez questão de me mostrar a biblioteca do Centro Cultural Português, de que muito se orgulhava.

Observei, impressionado, as prateleiras preenchidas com as obras de Camilo, Camões, Eça, Pessoa, Gil Vicente, Guerra Junqueiro, Jorge de Sena, Sofia de Mello Breyner e muitos outros.

Os livros apresentavam-se muito maltratados, evidenciando o desgaste resultante de múltiplas leituras. Vendo-me algo intrigado, esclareceu: “Sabe, estes livros são lidos por muita gente e com muita frequência. E muitos leitores, levam-nos e vendem-nos.”

Perante o meu ar surpreendido e antecipando a minha interrogação, continuou: “Mas eu recupero-os”.

“Como faz? Queixa-se à polícia?”, perguntei ingenuamente.

Sorriu. “Não valeria a pena. Vou ao Bandim (mercado de Bissau), direitinho à pessoa que os comprou, readquiro-os e devolvo-os aos seus lugares nas prateleiras”.

Muitos daqueles livros foram recomprados várias vezes, poupando, de forma inteligente e socialmente relevante, muito dinheiro ao erário público, que resultaria da aquisição de exemplares novos das obras sucessivamente subtraídas.

Ao contrário da afirmação que me levou a escrever este texto, os livros portugueses na Guiné-Bissau não só ajudavam a combater a ignorância e a promover a cultura, como contribuíam para sobrevivência dos seus leitores.

Nota: quando escrevi este texto, há dias, não consegui recordar o nome do conselheiro cultural, que não voltei a encontrar. Um amigo disse-mo depois - Mário Matos e Lemos. E acrescentou: “90 anos, fresco como uma alface.”

Continuação, caro Mário!

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