O laço da discórdia

Luís Newton

Consultor

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Há laços que unem. Este tornou-se um laço de discórdia.

Durante quase uma década, o futuro funcionamento do Metropolitano de Lisboa dividiu governos, partidos, autarquias e utilizadores.

De um lado, a Linha Circular, escolhida pelos governos do Partido Socialista. Do outro, a Linha em Laço, defendida como forma de preservar as ligações diretas entre o eixo norte e o centro da cidade.

Também eu tomei posição neste debate.

Opus-me à Linha Circular e, quando a execução da obra se tornou praticamente irreversível, passei a defender o laço. Não porque o considerasse perfeito, mas porque me parecia melhor do que a solução circular e permitia corrigir parte dos prejuízos de uma opção estratégica que sempre considerei errada.

Não apago essa posição nem reescrevo o passado.

A responsabilidade política pela escolha, lançamento e gestão inicial do projeto pertence aos Governos do PS. Foi sob a sua tutela e a das administrações do Metropolitano por eles designadas que se acumulou a maior parte dos atrasos e da derrapagem financeira.

A obra foi aprovada com um custo de cerca de 210 milhões de euros e conclusão prevista para 2023. Hoje, o investimento aproxima-se dos 379 milhões e a entrada em funcionamento está apontada para o primeiro trimestre de 2027. São mais de três anos de atraso e quase 170 milhões de euros adicionais: uma herança demasiado pesada.

Acresce que agora, a reconversão imediata para o laço acrescentaria pelo menos 10 milhões de euros, exigiria alterações na sinalização e novos testes, provocaria mais atrasos e criaria riscos para o contrato de financiamento e para os fundos comunitários associados ao projeto.

O atual Governo não é responsável pela origem do problema, mas está empenhado na sua solução. E uma posição política séria não pode ficar congelada no momento em que foi formulada. O projeto avançou, os custos cresceram e surgiram novos elementos técnicos sobre os modelos de exploração.

Pretende-se que a exploração circular permita reduzir o intervalo entre comboios e cerca de 90% dos clientes do Metropolitano verão o número de transbordos diminuir ou manter-se e que, na maioria dos casos, os tempos de viagem serão reduzidos.

Depois de tudo o que já se gastou e de todos os prazos ultrapassados, não é responsável fazer depender a abertura da linha de uma nova alteração imediata. E é essa responsabilidade deste Governo que merece elogio.

Acredito que isso não significa abandonar o laço. Significa manter essa possibilidade e submeter as duas visões à prova mais exigente de todas: a realidade.

Por isso devemos abraçar a lição que o funcionamento nos dará.

Se a Linha Circular demonstrar que serve melhor a generalidade dos passageiros, devemos ter a honestidade de o reconhecer. Se confirmar os problemas para os quais alertámos, o Governo e o Metropolitano deverão ter a coragem de avançar para o laço.

Talvez seja essa a única forma de desfazer o laço da discórdia: deixar que os factos decidam aquilo que a política, durante tantos anos, não conseguiu unir.

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