Há uma forma de mentir que dispensa a invenção, basta chamar virtude ao erro. Foi o que o socialismo fez com a imigração. Os dados do INE não revelam segredo nenhum, limitam-se a confirmar o que qualquer pessoa honesta via há anos e que era proibido dizer em voz alta.Comecemos pelo que não está em causa. Portugal precisa de imigração. Precisa de quem sustente a Segurança Social e alguns sectores, sem imigrantes, parariam amanhã. Negar isso seria irresponsável. Mas precisar de imigração não obriga a abdicar de regras, nem a converter a regularização em rotina, nem a vender como triunfo demográfico.Atentemos na escala: os estrangeiros residentes passaram de 421 mil, em 2017, para 1,54 milhões no final de 2024. Quadruplicaram em sete anos. Não é uma evolução, é uma mutação estrutural do país em tempo recorde. Uma transformação desta envergadura exigia tudo quanto o socialismo desprezou: planeamento, controlo, habitação, fiscalização, integração. Não fixámos os jovens, não subimos os salários, não devolvemos esperança às famílias. O país não se renovou. O país substituiu, administrativamente, aquilo que já não consegue gerar socialmente.Em Outubro de 2023, o PS extinguiu o SEF e repartiu-lhe as competências por três polícias e duas entidades administrativas, um modelo sem paralelo na União Europeia, que contraria de frente a doutrina comunitária de centralização e especialização no controlo das fronteiras.A avaliação Schengen de 2017 recomendara a Portugal exactamente o oposto, reforçar os efectivos e a formação permanente do serviço de fronteiras. O Governo socialista desmantelou justamente o serviço que Bruxelas mandava robustecer.A AIMA, criada para gerir o que restou, nasceu já submersa: arrancou com 714 funcionários (41% do efectivo herdado) e perto de 350 mil processos por decidir, que depressa ultrapassaram os 447 mil só em manifestações de interesse, a porta giratória que legalizava quem entrava sem visto. Os tribunais administrativos herdaram a conta, o de Lisboa encerrou 2024 com quase 47 mil processos de imigração pendentes, 80 vezes mais do que no ano anterior. Isto não é um Estado que acolhe.Uma política séria assenta em três palavras que o socialismo nunca quis pronunciar: controlo, qualificação, integração. Senso comum, não é? Saber quem entra e como vive. Atrair quem o país necessita, e não quem convém aos sectores viciados em mão-de-obra barata. Garantir língua, escola, casa e saúde. O PS falhou nas três e legou-nos o pior dos mundos: nem fronteiras controladas, nem pessoas integradas, nem resposta ao envelhecimento, nem travão à emigração dos jovens, nem política demográfica, nem política migratória.A imigração não pode ser o álibi de uma economia de baixos salários. Não pode ser o disfarce estatístico de um país que perdeu jovens, perdeu ambição e perdeu capacidade de planear. A imigração deve servir Portugal e respeitar quem chega e o modelo do PS não fez nem uma coisa nem outra. Receber, sim, mas sabendo a quem se abre e estando à altura de quem se recebe. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.