O império da insatisfação

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Da infantilização à simplificação, vivemos dias de vazio. O caminho que nos propõem parece conduzir-nos precisamente aí: a um pensamento cada vez mais raso e a uma rapidez incessante, um ruído permanente que nos impede de refletir e alimenta um sentimento de insatisfação.

No livro A Última Lição (Contraponto), Sobrinho Simões identifica a insatisfação como um dos grandes males do nosso tempo, uma condição sem verdadeira solução. Observando pessoas de diferentes idades, profissões e contextos, reconheço esse diagnóstico. Temos isto? Queremos aquilo. Chegámos aqui? Afinal desejávamos estar ali. A canção de António Variações regressa-me vezes sem conta como o retrato perfeito dessa inquietação.

Também o trabalho parece ter deixado de conhecer um ponto de chegada. Vivemos como se estivéssemos permanentemente numa prova de esforço: a acelerar, a controlar a respiração, a sentir o coração disparar, sempre a tentar cumprir mais uma meta que, afinal, nunca o é. Apenas uma passagem para a seguinte.

Nenhum trabalho é mais importante do que o bem-estar. Nenhuma tarefa nos valida mais do que a prática da vida. O essencial continua a ser viver. E viver bem. Existir em permanente correria, sem tempo para pensar, é um resultado pobre para uma civilização que percorreu um caminho tão extraordinário e conquistou o que durante séculos parecia inimaginável.

Instalados na era do progresso e da tecnologia extrema, ouvimos diariamente que a Inteligência Artificial fará por nós um número crescente de tarefas, substituindo capacidades humanas. Mas talvez devêssemos perguntar se não fomos nós, muito antes disso, a abdicar de competências fundamentais. Faça uma experiência simples: veja quantas horas passa diariamente diante de um ecrã. Depois leia o que a investigação científica nos diz sobre os efeitos desse tempo na atenção, na memória, na capacidade de concentração e na própria atividade cerebral.

No romance A Partida (Quetzal), Julian Barnes coloca na boca de uma personagem uma frase desconcertante: “A felicidade não me faz feliz.”

Talvez nunca tenhamos aprendido verdadeiramente a ser felizes. Não me parece que exista uma cultura da celebração, da satisfação ou da gratidão. Vivemos orientados para o que falta, para o que ainda não conquistámos, para a próxima etapa. Nada basta. Nada permanece. A angústia instala-se como estado quase permanente.

Pergunto-me, por isso, que consequências tem esta forma de viver sobre o corpo e sobre a saúde mental. Os estudos mostram o aumento do consumo de antidepressivos, dos comportamentos aditivos, dos índices de infelicidade, da violência e, paradoxalmente, de uma estranha apatia. Estaremos, pouco a pouco, a desistir? E, se for esse o caso, o que significa essa desistência para quem agora cresce e aprende connosco?

Faço muitas vezes as mesmas perguntas. Talvez porque ainda não encontrei respostas suficientemente boas. Se alguém as tiver, agradeço que mas conte.

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