O impasse estratégico da economia chinesa

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

Publicado a

A economia da China atravessa um período de transição estrutural profunda. O modelo historicamente assente no investimento imobiliário massivo e em infraestruturas está esgotado ou perto disso. Para o substituir, a liderança chinesa adotou uma estratégia focada em indústrias de alta tecnologia e nas chamadas “novas forças produtivas de qualidade”, bem como no incremento do consumo interno.

No entanto, esta transição está “dessincronizada”: o país tenta construir o novo modelo sem ter ainda conseguido resolver os problemas herdados do antigo, enfrentando simultaneamente desconfiança interna e uma forte resistência protecionista no plano internacional. Além disso, o país enfrenta ventos contrários demográficos e pressões deflacionárias.

 

1. O fim do antigo modelo e a crise imobiliária

  • Desaceleração inevitável: Após décadas de crescimento sem precedentes, a economia chinesa está a abrandar. O PIB cresceu 5,2% em 2023, 5% em 2024 e 4,5% em 2025, com o FMI a apontar desaceleração no último trimestre. Apesar das medidas de flexibilização monetária adotadas pelo Banco Popular da China, o consumo privado interno manteve-se contido e o país enfrentou pressões deflacionárias. As previsões das principais instituições internacionais apontam de forma consensual para uma desaceleração estrutural contínua a médio prazo; o FMI estima que a taxa de crescimento potencial da China convergirá para valores <4% até ao final da década. Em cenários de ausência de reformas estruturais profundas, o FMI estima que o crescimento potencial da China abrande para uma média de 3,8% entre 2025 e 2030 – o que significa c. 3% em 2030. Institutos especializados, como o BOFIT (Instituto do Banco da Finlândia para Economias em Transição), projetam uma trajetória ligeiramente mais conservadora para o crescimento real efetivo, prevendo uma desaceleração para perto de 3,5% em 2027 e cerca de 3,0% em 2028, motivada pela redução do impacto das exportações e pela lenta recuperação da procura interna.

É importante ter presente que, como várias reputadas entidades vêm chamando a atenção, existe uma falta de credibilidade dos números fornecidos pelo governo e agências chinesas, pelo que é bem possível que os números reais não sejam sequer 50% dos referidos acima.

  • O colapso imobiliário: O setor imobiliário, que outrora foi o grande motor da economia, que já representou cerca de um quarto da atividade económica chinesa, tornou-se um fardo. A bolha imobiliária rebentou, resultando em “cidades-fantasma” inacabadas, queda no preço dos ativos e uma enorme destruição de riqueza nas famílias.

  • Impacto fiscal: O colapso afetou gravemente as finanças dos governos locais, que dependiam historicamente da venda de terrenos públicos para obter receitas. Muitas destas administrações locais enfrentam agora montanhas de dívidas ocultas.

 

2. Pressões deflacionárias e falta de confiança

  • Deflação: Ao contrário do Ocidente, que enfrenta inflação, a China enfrenta pressões deflacionárias devido ao excesso de oferta (capacidade industrial) e à fraca procura interna. Se se considerar o IPP (Índice de Preços ao Produtor) – que mede os preços à saída das fábricas e reflete a saúde do setor industrial – em 2023, o índice de preços ao produtor caiu entre -2,5% e -5,4%, em 2024 caiu entre -1,5% a -2,0% e, em 2025, terá continuado com valores negativos ou nulos.

  • Ceticismo do consumidor e investidor: Marcados pelos confinamentos severos da política “covid-zero” e pela perda de riqueza imobiliária, os consumidores chineses passaram a poupar de forma agressiva para se precaverem contra a incerteza. Mesmo com o banco central a inundar o mercado com liquidez e a baixar as taxas de juro, as empresas privadas e os cidadãos recusaram-se a contrair empréstimos para investir ou consumir. O investimento privado estagnou e o capital estrangeiro começou a retirar-se ou a repatriar lucros em vez de reinvestir.

  • Desafios demográficos: A força de trabalho da China está a encolher e a população a envelhecer rapidamente, com taxas de fertilidade a cair a pique, agravada por uma falta de capital humano adequado nas zonas rurais.

  • Fragilidade da rede de segurança social: Historicamente, os cidadãos chineses poupam muito porque o sistema público de pensões, de saúde e de desemprego é limitado. Sem uma rede de segurança robusta, qualquer sinal de abrandamento económico faz com que a população retenha o dinheiro, paralisando o consumo de bens de consumo duradouros (automóveis, eletrodomésticos, tecnologia).

  • Produtividade decrescente: O retorno do capital investido em grandes obras públicas diminuiu, obrigando o país a tentar gerar crescimento puramente através da inovação tecnológica.

  • Tensões geopolíticas: Barreiras comerciais internacionais e restrições tecnológicas ocidentais limitam parcialmente o teto de crescimento das exportações chinesas de alto valor acrescentado.

 

3. O novo livro de regras de Pequim: as “novas forças produtivas de qualidade”, incluindo os “três novos”

  • A estratégia de Xi: Pequim quer priorizar a “qualidade” do crescimento em detrimento da velocidade. O foco está na inovação indígena e na digitalização das cadeias de abastecimento, visando garantir que o país lidere a próxima revolução industrial global, unindo a sustentabilidade verde à inteligência digital.

  • Os “três novos”: O governo chinês canalizou uma enorme quantidade de subsídios e investimentos estatais para três setores ecológicos de alta tecnologia: veículos elétricos (VE), baterias de iões de lítio e painéis solares, representando os motores atuais de exportação e manufatura avançada. São indústrias maduras no topo da cadeia de abastecimento global, gerando lucros, emprego e domínio de mercado no presente.

  • As “novas forças produtivas de qualidade”: funcionam como uma ambiciosa estratégia macroeconómica e o plano diretor para o futuro de toda a economia chinesa, visando escapar à “armadilha dos países de rendimento intermédio”, cunhado pelo presidente Xi Jinping. Trata-se de um modelo focado no crescimento impulsionado pela inovação tecnológica disruptiva, inteligência artificial e alta produtividade, desvinculando o crescimento chinês do setor imobiliário e das indústrias pesadas tradicionais. Os “três novos” são, na verdade, a face visível e o primeiro grande sucesso prático desta nova estratégia. Todavia, esta estratégia não se limita à transição verde, englobando uma vasta gama de setores de alta tecnologia que a China considera estratégicos para alcançar a autossuficiência e a liderança global. Os principais setores incluídos são: (i) tecnologias digitais e inteligência avançada, incluindo Inteligência Artificial (IA) e Big data: desenvolvimento de chips avançados de IA, modelos de linguagem e automação industrial, computação quântica: investigação em comunicações e computação quântica para segurança e processamento de dados e redes de nova geração: expansão e evolução do 5G para o 6G e infraestruturas de internet industrial; (ii) manufatura avançada e aeroespacial, incluindo robótica industrial de alta precisão: automação total de fábricas com robôs inteligentes de fabrico doméstico, semicondutores e circuitos integrados: o esforço crítico para alcançar a independência na produção de microchips avançados, aeroespacial e aviação comercial: desenvolvimento de aviões civis (como o C919) e exploração espacial comercial / satélites; (iii) biotecnologia e cuidados de saúde, incluindo biofarmacêutica: desenvolvimento de novos medicamentos, terapias genéticas e vacinas avançadas, e equipamento médico de ponta: substituição de tecnologia médica importada por dispositivos de diagnóstico de alta tecnologia produzidos na China; (iv) novos materiais e economia verde, incluindo materiais avançados: grafeno, supercondutores, ligas metálicas aeroespaciais e novos compostos químicos necessários para as indústrias de ponta, e energias limpas de próxima geração: além dos painéis solares atuais, inclui a aposta no hidrogénio verde e na fusão nuclear controlada; (v) economia de baixa altitude, incluindo drones comerciais e eVTOLs: um setor em rápida expansão na China, focado no uso de veículos aéreos não tripulados para logística urbana, agricultura de precisão e transporte de passageiros em curtas distâncias.

  • A contradição: Embora os três novos setores da economia verde [e a parte em curso das “novas forças produtivas de qualidade”] cresçam rapidamente, eles representam menos de 5% do total das exportações chinesas. Ainda não têm dimensão suficiente para absorver os trabalhadores despedidos dos setores em declínio (como a construção e o imobiliário e a manufatura tradicional).

 

4. Os três paradoxos

Os autores identificam três paradoxos na estratégia atual de Pequim:

  1. Estado vs. mercado: Como pode a “mão invisível” do mercado afetar recursos de forma eficiente se o Estado intervém constantemente e dita quais as empresas que devem sobreviver? O gradual favorecimento do setor estatal em detrimento do setor privado (que sofreu uma dura repressão regulatória em 2021) desincentiva o dinamismo económico.

  2. Dependência do velho: O governo promove a alta tecnologia, mas a economia real ainda depende muito das indústrias tradicionais para não colapsar.

  3. Consumo vs. produtivismo: Xi Jinping rejeita o “assistencialismo” (como transferências diretas de dinheiro para as famílias ou redes de segurança social robustas), temendo que isso leve à “armadilha do rendimento médio”. Em vez de apoiar os consumidores para reequilibrar a economia, o governo continua a injetar dinheiro nas empresas e na capacidade de produção, gerando uma sobrecapacidade de produção massiva que o mercado interno chinês não consegue absorver; para sobreviverem, as empresas iniciaram guerras de preços brutais a nível doméstico (de que o exemplo mais notório é o dos VE) e tentam exportar o excedente, espalhando pressões deflacionárias para o resto do mundo.

 

5. A reação internacional e a “dissociação” (decoupling)

  • Resistência global: Ao canalizar o seu excesso de capacidade industrial para a exportação, a China gerou alarme nos seus parceiros comerciais. Países desenvolvidos (EUA, UE e economias do Extremo Oriente) acusam a China de subsidiar injustamente as suas indústrias e exportar desemprego.

  • Guerra comercial e tarifas: O processo de dissociação (decoupling), iniciado por D. Trump em 2018, continuou com a administração Biden e regressou em força no segundo mandato de Trump, que impôs tarifas punitivas sobre os VEs e painéis solares chineses e fortes restrições ao comércio com a China. A UE também criou restrições, seja para defesa da indústria automóvel europeia, seja para restringir o acesso de empresas chinesas a setores estratégicos na Europa.

  • Mudança nas cadeias de valor: Entre 2017 e 2025, a percentagem das importações de bens dos Estados Unidos vindas da China registou uma queda acentuada e histórica – de 21,6% em 2017 para 10% em 2025. Esta contração foi impulsionada pela guerra comercial iniciada em 2018, pelas disrupções da pandemia e pelo processo de diversificação de cadeias de abastecimento (nearshoring e friendshoring), com o México e os países da ASEAN (como o Vietname) a ocuparem o espaço perdido pelos chineses. Contudo, muito deste desvio de comércio é apenas aparente, uma vez que muitas empresas chinesas contornaram as restrições transferindo a montagem final dos seus produtos para países como o Vietname, a Tailândia ou o México.

  • Deslocalização da capacidade manufatureira: o aumento dos custos laborais na China, a estratégia empresarial de mitigação de riscos geopolíticos (conhecida como China + 1), a imposição de fortes barreiras alfandegárias por parte dos EUA e da UE, e as diretrizes do próprio governo chinês – que prefere focar a sua economia interna em tecnologias de ponta e inovação de alto valor acrescentado – têm levado cada vez mais empresas chinesas para outras geografias – o Sudeste Asiático (o hub de proximidade), o México (a “porta das traseiras” para os EUA), Hungria e Espanha (a base de entrada na UE), Marrocos, África Oriental (setor têxtil).

  • Retaliação política: O uso agressivo de sanções comerciais por parte de Pequim contra países como a Austrália, Lituânia e Coreia do Sul acelerou o desejo global de reduzir a dependência económica da China.

 

Conclusão

A China encontra-se num impasse estratégico. Preso entre o controlo estatal e a necessidade de dinamismo de mercado, o modelo de Xi Jinping de “estabelecer o novo antes de abolir o velho” está a desacelerar o crescimento da economia do país. Perante as restrições nos mercados ocidentais e as fragilidades internas, Pequim está a ser forçada a focar-se mais no seu mercado doméstico e a redirecionar a sua capacidade exportadora e influência económica para o Sul Global. A forma como a China gerir esta transição interna e a reação de um mundo pouco tolerante aos seus desequilíbrios económicos ditarão a saída deste impasse e terá profundas implicações na geopolítica das próximas décadas. 

Diário de Notícias
www.dn.pt