Por ter sido eleito de forma intercalada, Donald Trump é hoje o 47.º presidente dos Estados Unidos, mas já foi o 45.º. Também Grover Cleveland, no final do século XIX, foi, pela mesma razão de dois mandatos não-consecutivos, o 22.º e o 24.º presidente dos Estados Unidos.Relembro isto para sublinhar que na realidade George Washington e os seus sucessores são ao todo 45, contando Trump, e, portanto, o facto de quatro deles terem sido assassinados é uma percentagem impressionante. Ou seja, ser presidente americano significa hoje ter o cargo mais poderoso do mundo, mas significa também ter um cargo perigoso.O próprio Trump disse-o por outras palavras poucas horas depois do tiroteio no hotel de Washington em que estava a decorrer o jantar anual dos correspondentes da Casa Branca. O atacante não chegou a entrar na sala onde estava o presidente, mas a ameaça foi tão séria que os serviços secretos arrastaram Trump para local seguro, também o vice-presidente JD Vance, e homens fortemente armados foram vistos (e filmados) a proteger o líder do país.. O grosso do debate imediato, e a personalidade de Trump não é alheia a isso, centrou-se, por um lado, no impacto eventual do atentado falhado nas eleições intercalares de novembro, e, por outro, na responsabilidade da extrema polarização política nos Estados Unidos no rumo dos acontecimentos. Para a primeira questão, a resposta é relativamente fácil, isto é, que, seja pela via da vitimização ou por qualquer outra, Trump tentará tirar dividendos, mas a seis meses de distância é demasiado cedo para ter certezas, pois provavelmente o impacto da guerra no Irão e a situação económica pesará muito mais na hora de votar.Na segunda questão, há certa tendência para culpar Trump, e toda a sua retórica desafiadora, pela tal extrema polarização. Sobretudo se for comparada a sua agressividade verbal, seja contra adversários democratas, seja contra os próprios jornalistas, com o registo de outros presidentes recentes, há todo um novo nível que os cientistas políticos notam, e os historiadores registam. Mas também é preciso notar que o tom das críticas a Trump dificilmente tem comparação com as feitas a outros presidentes, e que na realidade o próprio sistema partidário americano cada vez mais assumiu essa polarização extrema como algo natural.Aquilo que no passado era regra, a possibilidade de entendimentos no Congresso ultrapassando as fronteiras partidárias, ou o alcançar de consensos entre um Congresso dominado por um partido e um presidente oriundo de outro, tornou-se uma miragem. E isso fragiliza um país que este ano celebra os 250 anos da Declaração de Independência, que deveria ser festa de unidade nacional.."A polarização de hoje pode ser contrariada. É uma responsabilidade de todos, na América, a começar pela classe política. E, portanto, Trump tem aí um papel que poderá ajudar a definir como ficará na história. Muito se pode fazer quando se é o homem mais poderoso do mundo.”.Todos os debates sobre as vantagens políticas de sobreviver a um ataque armado, todos os debates sobre responsabilidades de uns e outros na polarização extrema da sociedade americana são admissíveis, mas não devem ocultar o essencial: a violência para resolver divergências políticas não é admissível, por muito que Cole Thomas Allen, o atacante, se tente justificar. E foi relevante ver uma série de líderes internacionais, muitos deles com atritos sérios com o presidente americano, de imediato a condenar o que se passou no Washington Hilton, expressando alívio por nada ter acontecido a Trump, à primeira-dama Melania Trump, aos membros da Administração presentes, e também aos outros participantes no jantar dos correspondentes da Casa Branca, o primeiro em que o atual presidente aceitou participar enquanto tal.Volto ao aniversário da Declaração de Independência. A história dos Estados Unidos é uma história de sucesso, mas com um caminho pejado de contradições que tiveram de ser resolvidas. A da escravatura ser admitida num país que nasceu dos ideais de liberdade foi uma dessas contradições, enorme, que só se resolveu com uma Guerra Civil em meados do século XIX. Polarização mais extrema é impossível de imaginar do que aquela dos anos 1861-1865 e, no entanto, os Estados Unidos saíram dela mais fortes, no espaço de poucas décadas a tornarem-se o país mais poderoso do mundo, e a atraírem milhões de imigrantes para o sonho americano. O que significa que a polarização de hoje pode ser contrariada. É uma responsabilidade de todos na América, a começar pela classe política. E, portanto, Trump tem aí um papel que poderá ajudar a definir como ficará, na história. Muito se pode fazer quando se é o homem mais poderoso do mundo.