“O futuro é a paz”

Alexandra Leitão

Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS

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Maoz Inon, israelita, perdeu os pais a 7 de outubro de 2023. Aziz Abu Sarah, palestiniano, perdeu o irmão na primeira Intifada. Os pais de Maoz Inon foram mortos no terrível ataque do Hamas, o irmão de Aziz Abu Sarah foi detido e torturado por militares israelitas e veio a morrer como consequência disso. Maoz Inon e Aziz Abu Sarah pertencem a uma associação que reúne israelitas e palestinianos que têm em comum o sofrimento de terem perdido familiares no conflito, o “Parents Circle – Families Forum” (PCFF), e cujo objetivo é transformar a dor dos seus membros na coragem da reconciliação, do diálogo e da paz. Apesar da sua dor, Maoz Inon e Aziz Abu Sarah, em vez de cederem a uma espiral de ódio e vingança, optaram por lançar um manifesto pela paz.

Em busca do que apelidam ser “o poder transformador da viagem”, entregaram-se a uma viagem pela Terra Santa, que documentaram em livro. Esse livro, The Future is Peace, foi lançado em 23 de abril de 2026 e é uma leitura obrigatória num contexto de enorme crispação política e social, em que um líder mundial ameaça aniquilar uma civilização inteira e vários líderes defendem a guerra, a violência e a intolerância, gerando sentimentos tão divisionistas “de ódio, extremismo e tribalismo, que já não conseguimos ver a humanidade uns dos outros e sentir empatia pelo sofrimento mútuo”.

A viagem começou no cemitério onde estão sepultados os pais de Maoz Inon porque “todo o trabalho pela paz tem de começar por confrontar a dor e o luto”. Reviveram aí os horrores do 7 de outubro e depois, junto à cerca de cimento e arame farpado que separa a faixa de Gaza, escrevem no seu livro que “para as pessoas que vivem em Gaza todos os dias são 7 de outubro”.

Os autores passam por Jaffa, Tel Aviv, Jerusalém, Cisjordânia, Nazaré e Galileia e vão descrevendo as pessoas que encontram e os lugares que visitam, com referências históricas e atuais, sempre com a mesma perspetiva de encontrar o que é comum à humanidade e narrando episódios de dor e de sofrimento, mas também, em alguns casos, de sublimação, altruísmo e reconciliação. Porque o caminho para a paz faz-se ouvindo e conhecendo o outro.

Em Israel e na Palestina, assim como no Irão e em outras partes do mundo, é impossível impor a paz e a segurança pela força, pela guerra e pela violência, que, pelo contrário, só geram mais ódio, mais violência e mais desumanidade.

Isto vale para as relações internacionais, mas vale também para o nosso país, para a nossa cidade e para o nosso bairro. Recentemente, em Lisboa ocorreram ataques e atitudes motivadas pelo ódio: uma garrafa com gasolina atirada contra uma manifestação pacífica, uma mulher proibida de entrar num autocarro por usar máscara e hijab, um refugiado iraquiano atacado por jovens portugueses, a estátua de Natália Correia vandalizada com simbologia nazi.

Perante tudo isto, deixo esta citação lapidar do livro. “Para aqueles que veem apenas linhas divisórias, dizemos: “se têm de nos dividir, que seja entre os que acreditam na paz e na igualdade e os que não acreditam… ainda”.

Nota: as passagens entre aspas são do livro The Future is Peace (numa tradução livre) cuja leitura recomendo.

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