A OCDE, um “clube” de países ricos, com uma ideologia tendencialmente liberal e tecnocrática, recomendou esta semana que Portugal reduza os impostos sobre os trabalhadores com salários mais baixos, aumentando, em contrapartida, a carga fiscal sobre a propriedade e eliminando isenções fiscais ineficazes. Até parece uma recomendação da CGTP-IN, que levaria PSD, IL e Chega a gritarem instantaneamente aos quatro ventos: “Vem aí o comunismo, ai que medo!”Outro facto curioso: em Portugal, Joaquim Miranda Sarmento foi um dos cinco ministros das Finanças da União Europeia a tomar a iniciativa de propor um novo imposto comunitário sobre os chamados “lucros extraordinários” das empresas de energia. Perdi a conta ao número de vezes em que, por exemplo, o PCP reivindicou uma medida semelhante.Contraditoriamente, em 2022, aquando do início da guerra na Ucrânia, Miranda Sarmento qualificou uma medida semelhante, aplicada por um governo socialista, como “popular e demagógica”. Pelos vistos, agora, o “socialismo” já não lhe mete medo e até é politicamente conveniente.Mais outro facto: o Parlamento aprovou por unanimidade, também esta semana, uma proposta de lei do Governo que mantém um desconto temporário e extraordinário no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) em vigor até 30 de junho, para combater a escalada de preços provocada pela guerra contra o Irão. É um desconto pequenino, mas, para quem ouvisse os porta-vozes do Governo há apenas duas semanas, só pensar nele era um crime de lesa-pátria, e a oposição, que se fartou de o pedir, não sabia do que estava a falar. Estes três exemplos mostram como a realidade da vida se impõe ao discurso político numa sequência sempre igual: primeiro, recusa-se a medida protecionista, “porque vai contra as regras do mercado”; depois, não se reduz um imposto “para respeitar os limites do défice orçamental”; mais à frente, acusam-se de “demagogia” e “irresponsabilidade” as forças políticas que insistem em medidas desse tipo; e, por fim, quando a irracionalidade já é vista até pelos mais cegos, tenta-se iludir o olhar das massas com um truque de prestidigitação e anuncia-se, como iniciativa própria, aquilo que tantos outros antes defendiam. Li ontem no Diário de Notícias que um organismo do FMI produziu um relatório onde constata que os “aumentos acentuados da despesa com Defesa conduzem, em geral, a uma deterioração das posições orçamentais dos países” (na NATO, os países têm de elevar essa despesa anual para 5% do PIB até 2035) e que, por isso, há que fazer cortes noutras despesas do Estado. O relatório avança que esses cortes, escreve o DN, “podem chegar a 25% no caso dos apoios sociais (como subsídios de desemprego, complementos contra a pobreza, etc.), a 26% na área da Saúde e a 14% na Educação”.Até agora, os nossos governantes - que aceitaram sem pestanejar esta imposição de aumento de despesa feita por Donald Trump, pela NATO e pela Comissão Europeia - têm sempre negado aquilo que a esquerda portuguesa tem dito: não é possível chegar a gastos de 5% do PIB em Defesa e Segurança sem reduzir os apoios sociais, sem degradar ainda mais o Serviço Nacional de Saúde e piorar a Educação e, por isso, uma subida tão elevada da despesa militar não é aceitável.Até agora, sem explicar como, Luís Montenegro e Nuno Melo têm garantido que sim, Portugal pode gastar 5% do PIB em Defesa sem diminuir os apoios sociais. Pelos vistos, para eles, o FMI, que os desmente com brutalidade, também é da “esquerda radical”, “comunista”, “demagógica” e “irresponsável”.