Os anos de Pedro Sánchez na chefia do Governo espanhol são pródigos em inovações. Começaram logo com a chegada ao poder.Em 2018, Sánchez instalou-se no Palácio da Moncloa graças a uma moção de censura, a primeira aprovada em democracia. Motivou-a uma crítica impiedosa aos casos de corrupção que cercavam o PP, de centro-direita, à época no Executivo.Aqui chegados, o balanço é claro: o partido que se içou ao poder para limpar Espanha levou o tráfico de influências, o peculato e a corrupção ao paroxismo. Por culpa própria, o governo perdeu a sua razão fundacional.A Espanha de Sánchez entrou depois numa paralisia política que obrigou o país a sucessão vertiginosa de eleições. Quatro legislativas em quatro anos. Hoje, o PSOE governa por decreto, uma vez que não consegue aprovar iniciativas no Parlamento. O país vai para o terceiro ano sem Orçamento do Estado.Como é normal num partido com 147 anos de vida, o PSOE tem uma história plural, com diferentes fases e não poucas incongruências. Há, porém, linhas de continuidade que fazem a identidade do partido. Por exemplo, não celebrar alianças com separatistas. O PSOE - como o PP - apoiou-se em nacionalistas catalães e bascos para governar, mas nunca em partidos com o objectivo declarado de independência.Também aqui Sánchez inovou. Após ter dito, de todas as formas possíveis e imaginárias, que jamais, em circunstância alguma, se entenderia com o E.H. Bildu, coligação separatista basca de extrema-esquerda, herdeira da ETA, deu o dito por não dito.O mesmo sucedeu com os partidos catalães responsáveis pela intentona separatista de 2017, o maior ataque à ordem constitucional democrática desde a década de 1980. Prometeu que não os indultaria, mas indultou.Depois, jurou que não os amnistiaria. Já estavam indultados e as amnistias, dizia, eram inconstitucionais. Palavra dada é palavra honrada. Mas amnistiou.Em resumo, Sánchez garantiu que a governabilidade de Espanha não ficaria nas mãos dos separatistas, mas, como é bom de ver, ficou. Mais uma inovação.Tudo isto redunda numa absoluta descaracterização do PSOE. Não surpreende que muitos históricos do partido, entre os quais Felipe González, assumam há já bastante tempo criticas frontais ao secretário-geral.Outra consequência está nos resultados eleitorais. Considerando as últimas 30 eleições celebradas em Espanha, o PSOE venceu apenas seis. Os socialistas acumulam derrotas históricas (outra inovação). González, que transformou o PSOE num partido interclassista de massas que ganhou três maiorias absolutas, garante que não votará mais no PSOE enquanto Sánchez estiver ao leme.Por fim, as inovações alegadamente criminais. A mulher, o irmão, o braço-direito no partido e o braço-direito no governo de Pedro Sánchez estão envolvidos em espinhosos processos judiciais. De permeio, pela primeira vez em democracia, um procurador-Geral foi condenado por violar o segredo de Justiça ao serviço dos interesses políticos do PSOE. Mais uma inovação.E esta semana ficámos a saber que José Luis Rodríguez Zapatero, ex-presidente de governo socialista, mentor de Sánchez e figura tutelar do progressismo espanhol, foi acusado de branquear capitais e liderar “uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências”. Sim, também aqui estamos perante algo sem precedentes.Os vários casos judiciais são muito diferentes entre si. Têm, contudo, duas coisas em comum: todos envolvem dinheiros públicos; e as alegadas prevaricações só foram possíveis porque Sánchez preside ao governo.Sánchez não tem maioria parlamentar, não tem maioria social, deteriorou a separação de poderes e enfiou Espanha num pântano de polarização desbragada. Não consegue governar há mais de um ano. A queda do seu mentor deixa-o sem Norte.Zapatero inaugurou o actual ciclo político de progressismo espanhol e, graças a este processo judicial, vai encerrá-lo. Será o final simbólico de um período de total degradação das instituições. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico