A violência política não tem lado nobre. É sempre repugnante, sempre antidemocrática e sempre digna de condenação sem reservas. Numa democracia madura, a segurança pública e a defesa do Estado de Direito não podem oscilar ao sabor de simpatias ideológicas, nem depender da cor partidária de quem agride, incendeia, intimida ou destrói.Uma parte relevante dos media e do comentário político insiste em olhar para a violência da extrema-esquerda com uma indulgência inquietante, como se fosse menos grave, mais explicável ou politicamente mais tolerável. Como se fosse mais aceitável quando se faz em nome de causas supostamente nobres. Como se a intimidação, a sabotagem ou o terror ganhassem uma espécie de verniz moral por serem praticados contra “o sistema”, “o capitalismo” ou “as estruturas de poder”. Desde quando é que o recurso à violência deixa de ser intolerável só porque quem a pratica se proclama antifascista, anticapitalista ou revolucionário?No contexto europeu, esta não é uma discussão ou um exagero retórico. É uma realidade já identificada pelas instituições europeias e já debatida no próprio Parlamento Europeu. A apresentação do relatório TE-SAT 2025 na comissão LIBE mostrou que a violência de esquerda e anarquista continua a ter expressão concreta na União. Segundo o relatório Europol TE-SAT 2025, relativo ao ano de 2024, foram registados na União Europeia 58 ataques terroristas. Destes, 24 tiveram motivação jihadista, 21 resultaram de violência de esquerda e anarquista, 1 foi atribuído à extrema-direita, 4 tiveram carácter etno-nacionalista ou separatista, e 8 enquadraram-se noutras categorias ou ficaram por especificar. Dos 21 ataques de esquerda e anarquista, 17 foram efectivamente concretizados, sobretudo em Itália -com 18 ocorrências no total - e na Grécia. Os alvos incluíram o sector industrial, infra-estruturas críticas e símbolos do sistema económico.A extrema-esquerda violenta não é menos perigosa do que a extrema-direita. Não o é no seu desprezo pelo pluralismo. Não o é na sua hostilidade à liberdade. Não o é no seu impulso autoritário. Ambas rejeitam o debate racional, ambas desprezam a legitimidade do adversário. A diferença, muitas vezes, está apenas na embalagem.A violência da extrema-direita é, regra geral, imediatamente reconhecida como ameaça. E bem. Mas a violência da extrema-esquerda continua a beneficiar, em demasiados espaços mediáticos e culturais, de uma espécie de desconto moral. É descrita com eufemismos, enquadrada com cautelas semânticas, relativizada por análises sociológicas.Cabe também aos media reconhecer esta realidade sem filtros de conforto. A violência da extrema-esquerda não é uma abstracção académica, nem um detalhe de rodapé: é um problema real, crescente e ideologicamente blindado por sectores intelectuais e jornalísticos que há décadas lhe concedem o benefício da dúvida que nunca concederiam ao lado oposto. Escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.