À medida que vamos envelhecendo, vamos perdendo a capacidade de nos surpreendermos. Já vimos tudo, pensamos.Mas a verdade é que ainda há coisas que me surpreendem. Tanto que, por vezes, duvido se teriam mesmo acontecido ou se não terão antes tido origem num pesadelo.Desta vez, alguém terá proferido em público, entre outras pérolas, as frases: “Tudo pela Nação, Nada contra a Nação” e “A Bem da Nação e Pátria Portuguesas”. Lido no DN de 20 de julho, merece credibilidade.Só conhecia estas frases, típicas da correspondência administrativa dos tempos de Salazar, transcritas em livros de História. Acreditei que, na sua companhia, jaziam devidamente debaixo de terra há muitas décadas e que não mais as leria.Erro meu. Foram mesmo exumadas! E, em vez de cremadas, foram transformadas numa espécie de zombies linguísticos. E não por algum daqueles burgessos deputados do Chega que, quando falam – aquela exígua minoria que fala –, multiplicam os erros gramaticais e as frases incompreensíveis, ocasionalmente temperadas com ordinarices, mas por um desconhecido conselheiro nacional do Partido Social Democrata (cujo nome omito porque não descortino qualquer razão para o tornar conhecido).Sim, não é engano. Trata-se do partido fundado por Francisco Sá Carneiro, o mesmo partido que aprovou a Constituição, o partido de onde é proveniente a larga maioria dos membros do atual Governo. O partido de pessoas que respeito e considero, de Pacheco Pereira a José Eduardo Martins, de Leonor Beleza a Augusto Santos Silva, de David Justino a Paulo Mota Pinto.Acredito que estas pessoas se sintam incomodadas com a companhia do seu colega de partido, que parece saudoso dos tempos do “Estado Novo” e da sua semântica salazarenga e parafascista, dirigindo-se aos “bons portugueses” – expressão que a criatura também recuperou no seu escrito – e que, naturalmente, são os que aderem à sua simpatia pelas múmias políticas e por ideias tão bizarras como a de colocar um “cordão sanitário” à volta de um membro do Governo.A ascensão da extrema-direita na Europa vem acompanhada de uma reinvenção do passado, agora travestido de futuro, dourado pelo brilho de mil glórias. Alguém escreveu, referindo-se à Rússia, que nesta tudo é imprevisível, sobretudo o passado. Não creio que seja apenas na Rússia.Neonazis, neofascistas, neonacionalistas, neosalazaristas, todos, na falta de ideias minimamente originais, inteligentes e sensatas para o futuro, reciclam velhas receitas, vestindo-as com trajes de fantasia. Reveem-se em figuras há muito varridas para o caixote do lixo da História, como Hitler, Mussolini, Franco e Salazar. Destilando um racismo desumano e insólito, numa época de miscigenação ilimitada, vomitam que a seleção nacional de França não tem franceses (brancos!).Termino este texto citando uma frase da criatura: “Que Deus nos ajude!” Não obstante ser agnóstico, neste caso abro uma exceção e invoco a Sua ajuda para nos livrar deste e outros patetas que degradam o espaço público.