O elogio da leitura

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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Há dias, conversando com Gonçalo M. Tavares, partilhei o prazer que tive na leitura do seu último livro. Aí a realidade e a ficção misturam-se naturalmente. Longe de um retrato ou de uma profecia, do que se trata é de uma obra literária sobre a vida e o mundo, que contém, em si, os elementos que correspondem ao retrato do momento inesperado que vivemos, com um protagonista que tem o grande handicap de não ler, numa realidade heterogénea que nos revela um universo que se assemelha a uma caverna de segredos perturbadores com uma capacidade inesgotável de autodestruição.

Não importa atermo-nos à figura que deseja dominar os acontecimentos, porque a História se encarregará de a desvanecer mais tarde ou mais cedo. Mas há outros que se encarregam de desenvolver a ficção. Do que se trata, porém, é de considerar o que pode durar, o que continua e o que não surge por acaso, devendo tentar perceber-se o que tornou possível uma circunstância como esta, geradora de uma evolução patética, com opiniões voláteis, de avanços e recuos e de ameaças constantes. Calígula regressou ao nosso convívio, sem que déssemos por isso.

O que O Fim dos Estados Unidos da América nos traz é uma análise sagaz do género humano. Donde vem a peste? Como se transmite? Quem atinge? Como combatê-la? O certo é que a doença vai dissolvendo as bases do império. O petróleo, o ódio, o pânico e a luta de classes encarregam-se da destruição gradual e inexorável da sociedade. Entre Nova Iorque e a Califórnia, Bloom, com o seu amigo Creonte, procuram encontrar uma salvação para o país e a cura para a peste. Mas Ted Trash e Left Wing contribuem para confundir e agravar a situação. A galeria de personagens é muito extensa, e todas contribuem para eternizar o desastre que podemos perceber como se desenvolve.

No final desta semana, teremos em Tomar a 16.ª edição do Bibliotecando, tendo como o convidado de honra Valter Hugo Mãe, com uma obra vasta, multifacetada e premiada, que será discutida, refletida, analisada e interpretada num diálogo envolvendo perspetivas diversificadas e complementares.

O tema em torno do qual se centram os debates e as reflexões deste ano será “Entre o natural e o construído”, a partir das tensões dilemáticas que dominam o nosso tempo. O património cultural envolve o tangível e o intangível, a natureza e a paisagem, o digital e a criação contemporânea. O livro e a leitura são essenciais para compreender essa realidade.

Marcel Proust recordou um dia o que Descartes disse: “A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com as melhores pessoas dos séculos passados que foram os seus autores.” Conhecemo-los melhor do que o vizinho que cumprimentamos ao subir a escada, e usufruímos desse outro encontro um benefício incomensurável. E lembrar os autores dos confins dos tempos, não pode deixar de associar as suas personagens, que constituem o desdobramento das suas identidades. Eis por que são importantes os encontros sobre os livros e as bibliotecas.

Tomar renasce por estes dias: a arte e a literatura, o diálogo e a aprendizagem encontram-se, a ciência como cultura desperta consciências, a paixão das ideias preenche o mundo da vida. Escolas, escritores, artistas, professores, estudantes, cidadãos comuns fazem desses diálogos a oportunidade fundamental de tornar a língua, a cultura, a literatura e o conhecimento realidades vivas.

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