O dia em que dei um 'bacalhau' ao rei da Noruega

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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A primeira coisa que me impressionou à medida que nos aproximávamos do palácio real em Olso foi a ausência de vedações. Nem grades, nem portões. Nada. Naquele 17 de maio, Dia Nacional, a multidão vestida com as cores azul e vermelha da bandeira chegava muito, muito perto da fachada do residência oficial da família real, rodeando a estátua de Karl III Johan, o rei que a mandou construir em 1818.

Estávamos em 2008 e os reis Harald V e Sonja preparavam-se para uma visita de Estado a Portugal. Antes disso, os monarcas receberam um grupo de jornalistas portugueses no palácio, em Olso. Depois de percorrermos alguns corredores e salas, fomos recebidos pelo chefe do Protocolo, com o qual partilhámos a nossa mais premente dúvida: como é que devíamos cumprimentar o rei? A indicação foi para fazermos uma pequena vénia. E lá seguimos para outra sala. Harald V entrou, sorridente, seguido de Sonja. E mal chega diante de nós, estende a mão para cumprimentar os jornalistas um a um.

Pode ter sido a solenidade do ambiente ou a timidez diante de uma cabeça coroada, mas nenhum de nós teve coragem de explicar a Harald que em português dar um aperto de mão pode ser substituído pela expressão popular “dar um bacalhau”. E para nós, portugueses, bacalhau é sinónimo de Noruega!

Não me lembro exatamente do que falámos naqueles minutos, mas recordo como se fosse hoje a simpatia de Harald, que, a certa altura, começou a falar de uma das suas paixões: a vela. E como a rainha Sonja não escondeu o entusiasmo com o tema, incitando o marido a contar-nos mais sobre o seu novo barco.

E por que é que me lembrei agora deste dia em que “dei um bacalhau” ao rei da Noruega? Porque Harald esteve esta semana nas notícias por o seu estado de saúde ter piorado. O rei fora internado no início do mês devido a uma infeção bacteriana no sangue. Aos 89 anos, Harald soma problemas de saúde, com a receção à seleção norueguesa de futebol no palácio real, em finais de julho, a ser uma das últimas ocasiões em que foi visto em público.

Apesar da idade e da saúde frágil, o homem que em finais dos anos 60 desafiou as convenções para se casar com a plebeia Sonja, que era costureira e designer, sempre garantiu que ia cumprir até ao fim o juramento que fez de servir o país até à morte.

Com Harald de novo no hospital, os olhares viram-se para Haakon, o príncipe herdeiro que, desde os 18 anos, está a ser preparado para lhe suceder. Muito popular, Haakon poderá ter de assumir o trono numa altura em que lida com vários desafios na sua vida pessoal: da saúde da mulher, Mette Marit, a recuperar de um transplante de pulmão, aos problemas judiciais do enteado, condenado a quatro anos de prisão por violação e ameaças.

Harald pouco falou em público sobre o sucessor, mas Haakon, numa entrevista em 2020 à TV2, prometia ser rei “à minha maneira”. Mas uma coisa é certa, com o trono vai herdar também o lema dos antecessores: “Tudo pela Noruega”.

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