O currículo XXL e o cérebro XXS: muito conteúdo, pouca capacidade

João Conde

Professor catedrático e colíder do grupo de investigação em Nanomedicina e Oncologia Clínica, na NOVA Medical School

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A escola prepara para o teste, o mundo pede quem resolva problemas. Atualmente, temos aulas cheias de conteúdos, mentes vazias de competências. A escola continua organizada para um país que já não existe, um país idílico, onde as pessoas ainda compravam enciclopédias de 20 volumes e acreditavam que um canudo garantia o futuro, com aulas centradas no professor, disciplinas em silos, avaliação por memorização, horários fragmentados, métricas administrativas que confundem assiduidade com aprendizagem.

O resultado vê-se no choque entre diplomas e empregabilidade, na incapacidade de resolver problemas abertos, na literacia digital desigual e numa cultura de risco quase nula. Pior, a escola prepara os alunos para ‘passar’ e não para ‘fazer’, para repetir conteúdos e não para criar valor nem capacidade. Basicamente, estamos a criar exércitos de papagaios altamente qualificados para preencher folhas Excel em consultoras multinacionais por uns míseros mil euros por mês.

O nosso modelo de ensino está depauperado. Há três falhas estruturais. A primeira é de propósito, com currículos extensos, pouco prioritários, onde tudo é importante e, por isso, nada é essencial. Uma espécie de buffet chinês pedagógico, onde a digestão é impossível e o escorbuto intelectual é garantido.

A segunda é de método, em que a transmissão unidirecional e o teste de escolha múltipla ainda são a espinha dorsal. Afinal, a vida adulta resume-se a escolher entre as opções A, B, C ou D, sendo que a opção correta costuma ser ‘emigrar’.

A terceira é de ligação, em que o ensino continua separado da economia, da comunidade e da ciência, com estágios tardios e protocolares, e pouca exposição a problemas reais. Esqueçam a Física Quântica, o verdadeiro ‘problema real’ é perceber como é que o Diretor Escolar consegue justificar o orçamento anual gasto em resmas de papel.

A escola precisa de mudar o que ensina, como ensina e com quem ensina.

No ‘o quê’, a regra é foco. Cada ciclo deve garantir um núcleo de literacias obrigatórias, como leitura e escrita avançadas (composição, argumentação), matemática útil (modelação, estatística, finanças pessoais), ciência em contexto (dados, incerteza, método científico), competências digitais e IA (do pensamento computacional ao uso eficiente e ético), cidadania prática (saúde, ambiente, literacia digital), e artes e cultura como linguagem e técnica.

No ‘como’, é tempo de substituir a aula expositiva por aprendizagem baseada em problemas e projetos. Cada período letivo deve incluir pelo menos um desafio interdisciplinar que parta de situações concretas, como, por exemplo, desenhar um dispositivo de baixo custo para medir a qualidade da água do bairro, ou construir um orçamento familiar realista (um exercício magnífico de ficção científica dada a atual inflação), ou analisar dados de mobilidade local e propor alterações, ou produzir um podcast histórico com fontes primárias, ou montar um ensaio clínico ‘de papel’ para perceber por que razão a evidência conta. Nestes projetos, a avaliação é contínua e baseada em rubricas, define-se o que é ‘bom’ à partida (critérios de qualidade) e mede-se o progresso até lá.

No ‘com quem’, a escola abre portas e vai à rua. A solução não é um ‘dia de profissões’, é uma rede estável de parceiros, envolvendo autarquias, centros de saúde, universidades, laboratórios, empresas tecnológicas e industriais, cooperativas culturais, com projetos com desafios reais, mentores externos e entregáveis públicos.

Para que esta agenda deixe de ser retórica, é preciso mexer no coração do sistema. O currículo organiza-se em camadas e o calendário em blocos, uma camada nuclear, curta e exigente, garante as literacias essenciais. E por cima, uma camada modular, rotativa, com blocos de quatro a seis semanas dedicados a projetos que cruzam áreas. Menos fragmentação, mais concentração. Matemática, Português, Ciências/Dados e Inglês funcionam como colunas que atravessam os projetos e dão consistência ao percurso.

A avaliação acompanha esta mudança, em vez do exame que testa reprodução, ganham peso os portefólios, as apresentações orais, as provas práticas e os projetos finais de ciclo. A nota resulta de múltiplas evidências, incluindo a capacidade de explicar, aplicar e melhorar. Para garantir rigor, cada escola publica, no seu sítio, amostras anónimas de trabalhos por nível de desempenho, para que todos vejam critérios e limiares de qualidade.

Nada disto acontece sem tempo e carreira para os docentes. Metade da reforma depende de reservar horas semanais para desenvolvimento colaborativo, formação prática em coensino de projetos, avaliação com rubricas e literacia de dados, com progressão ligada à mentoria de pares e à liderança pedagógica. Bons professores a formar professores, assente em contratos estáveis. Isto assumindo que ainda temos professores que não estejam fortemente medicados com ansiolíticos. Não há reforma pedagógica com rotatividade anual. É uma utopia. É um desastre. A tecnologia entra quando serve a pedagogia, com plataformas simples e interoperáveis, que recolhem evidência de aprendizagem e devolvem feedback acionável a alunos e professores. Não para alimentar competições estéreis, mas para diagnosticar e melhorar com base em evidência.

Por fim, o Ensino Profissional e Tecnológico é a prova dos nove. O país precisa de técnicos superiores em automação, fabrico avançado, energia, saúde digital, manutenção de equipamentos de laboratório, análise de dados. Formar para projetos europeus, não apenas para a prova de aferição. Precisamos mais de técnicos que de doutorados. Sei que isto é polémico, mas é estruturalmente verdadeiro num país que já formou muitos licenciados e mestres, mas que continua sem técnicos intermédios suficientes para pôr a produção, os laboratórios, os hospitais e a transição energética a funcionar. Empresas, municípios, centros de investigação e hospitais precisam de operadores de equipamentos, programadores de automação, técnicos de manutenção, analistas de dados, técnicos de laboratório clínico e ambiental.

Hoje, demasiados licenciados fazem tarefas de técnico mal pago e demasiados equipamentos ficam parados por falta de quem os opere. Mas, ei! Pelo menos, temos as estatísticas europeias repletas de doutores desempregados para mostrar em Bruxelas.

‘Não há tempo’ e ‘não há dinheiro’ são os argumentos do imobilismo. Há tempo quando se corta o supérfluo, reduzir o número de disciplinas simultâneas, concentrar em blocos, eliminar redundâncias, ensinar menos, aprender melhor. Há dinheiro quando se reprograma, menos licenças inúteis, mais formação e mentoria, menos relatórios, mais tempo de planificação, menos compras avulsas, mais laboratórios didáticos partilhados (robótica, química segura e produção audiovisual/digital).

O mundo real pede gente que compreenda problemas, formule hipóteses, colabore, construa, meça e comunique. Pede carácter e competência, criatividade e método. A escola tradicional não falha por falta de esforço dos professores ou dos alunos, falha porque está mal desenhada para o século XXI. Repare-se no que fazem os sistemas que avançam, com currículo enxuto, projetos autênticos, docentes em desenvolvimento contínuo, parcerias estruturais e dados para aprender melhor.

Nada disso exige milagres, exige escolhas. E todos sabemos como a nossa tutela adora fazer escolhas... preferencialmente aquelas que adiam o problema para a legislatura seguinte.

Não precisamos de promessas grandiosas sobre a escola que há de vir. Precisamos de escolas que respondam ao presente, onde um aluno de 15 anos saiba ler criticamente um contrato de trabalho, fazer um orçamento, programar um sensor, escrever um ensaio, defender uma ideia, trabalhar em equipa e aprender com o erro.

Não precisamos só de alunos com média de 19,99; precisamos de alunos que sejam, no final, resilientes, porque os melhores alunos nem sempre são quem melhor aguenta a pressão. E até a pressão de perceber que o colega que reprovou três vezes virou influenciador e já comprou um T2 em Lisboa.

Quando isto acontecer em escala, o debate sobre o ‘mundo real’ deixa de ser um slogan e passa a ser biografia. E, nesse dia, a escola volta a cumprir a sua promessa, ou seja, abrir possibilidades e ‘dar mundo’ aos nossos alunos, aos nossos filhos. Até lá, continuemos a decorar a lista dos afluentes do rio Douro, que isso vai dar imenso jeito quando a Inteligência Artificial automatizar os nossos futuros empregos.

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