O corpo e a Justiça

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

Publicado a

Há uma frase que repeti durante anos, talvez demasiadas vezes: “Problemas são de saúde.”

Servia para relativizar quase tudo. Um prazo impossível. Um conflito profissional. Uma desilusão. Uma perda financeira. Um projeto que corria mal. Enquanto houvesse saúde, dizia eu, o resto resolver-se-ia. Era uma forma de impedir que o quotidiano ocupasse mais espaço do que merecia.

Continuo a acreditar que o corpo é o nosso verdadeiro território de vulnerabilidade. Basta uma análise, uma dor inesperada ou um diagnóstico para percebermos quão ilusória é a ideia de controlo. O corpo tem esta capacidade extraordinária de nos devolver à condição humana em poucos segundos.

Mas comecei a desconfiar da minha própria frase, porventura porque os tempos mudaram e as histórias que oiço arrepiam qualquer mortal.

Hoje penso que existe outra categoria de problemas capaz de destruir uma vida sem tocar um único órgão vital: os problemas de Justiça.

Não falo da justiça enquanto ideal, mas antes da experiência concreta de quem entra na engrenagem. Em Portugal, basta aproximarmo-nos desse universo para percebermos que a presunção de inocência é um princípio constitucional muito mais sólido nos livros do que na vida real.

Existe uma violência própria da suspeita. Mesmo quando termina em absolvição, arquivamento ou simples inexistência de culpa, sobra qualquer coisa. Uma notícia permanece para sempre na internet. Uma pesquisa no Google transforma uma pessoa numa dúvida permanente. O desmentido nunca tem a mesma força da acusação. A reparação raramente ocupa o espaço da destruição. E, depois, temos a voz do povo a insinuar-se: “Não há fumo sem fogo.” E o pior é que há.

É curioso como aprendemos cedo que um diagnóstico médico pode estar errado e aceitamos pedir uma segunda opinião. Perante uma suspeita judicial parece instalar-se uma convicção coletiva quase automática: se foi investigado, alguma coisa terá feito. Como se a investigação fosse, por si só, uma condenação.

A Justiça precisa de investigar, é evidente, e pode errar, até, porque nenhuma instituição humana é infalível. O problema começa quando o erro deixa de ter consequências para quem o provoca e passa a ser uma sentença para quem o sofre. O bom nome é um bem estranho. Demora décadas a construir e minutos a perder.

Algumas pessoas recuperam, outras nunca mais conseguem. Não porque tenham sido condenados, mas porque foram olhados de outra maneira. Talvez por isso tenha deixado de dizer que problemas são apenas de saúde, porque a doença do corpo, a medicina, geralmente, consegue tratar. As feridas na reputação? Ainda não descobrimos a cura.

Diário de Notícias
www.dn.pt