Há palavras que dizem mais de quem as profere do que de quem estas visam. Foi o que aconteceu na última terça-feira, na Faculdade de Direito de Lisboa, quando Pedro Passos Coelho, a apresentar A Constituição Fluída, de Blanco de Morais, avisou que o político postiço acaba “como um prostituto sem carácter”. Aquilo que pretendeu ser um diagnóstico professoral dos outros acabou por ser um retrato do seu próprio campo.Começo por aquilo que mais me incomodou, a linguagem. Um antigo primeiro-ministro descer ao registo da taberna e do bordel para fazer política não enobrece o debate, avilta-o. A direita liberal-conservadora gosta de reclamar para si os pergaminhos do decoro e acaba por competir na grosseria com aquilo que diz combater. Quem precisa do insulto para ser ouvido confessa que já não tem ideias para o ser.Mas o essencial não está no verbo, mas sim no cenário. O cenário, neste caso, é tudo. Passos pronunciou aquelas palavras com André Ventura sentado na primeira fila, num lançamento de pendor identitário, sob o olhar cúmplice do homem que personifica precisamente o que dizia condenar. Há qualquer coisa de irónica comédia nisto: o moralista que denuncia a prostituição pelo aplauso, a ser aplaudido por quem… comprou meio país com o crédito do ressentimento. Esta é uma fotografia sublime de uma direita que vestiu a fatiota do populismo e já nem se dá ao trabalho de disfarçar o namoro. E é por aqui que o discurso se vira contra o autor, porque o percurso que Passos descreve, o do político que se torna mais populista do que os populistas não é apenas, traço por traço, o de Luís Montenegro, refém do voto do Chega para sobreviver. É também o de Carlos Moedas, que governa Lisboa com entendimentos feitos com o Chega protegidos da luz do escrutínio. Mas é, sobretudo, o do próprio Passos, à procura de uma segunda vida política à boleia de Ventura.Convém lembrar o que isto significa. Há uma década, dizer que um líder do PSD dependeria da extrema-direita para governar era um insulto. Hoje é o que temos. Essa fronteira apagou-se sem estrondo, à força de orçamentos viabilizados à porta fechada e de indignações encenadas. Passos devia ser o primeiro a reconhecê-lo. Escolheu alimentá-lo: primeiro com a presença, depois com o aplauso, agora com a linguagem.Faltou-lhe depois a coragem das próprias palavras. Confrontado pelos jornalistas, recusou dizer a quem se referia e refugiou-se nos “labirintos de interpretação”. Atira-se a pedra e esconde-se a mão. É a política sem espinha levada ao limite, que faz barulho para substituir a substância.Sá Carneiro não confundia firmeza com insulto. A social-democracia que fundou subordinava o mercado à Justiça e media-se pelo carácter, não pela esperteza saloia. Por isso, quando Passos fala em prostitutos sem carácter, fica no ar uma pergunta que ele se recusou a responder. Talvez por saber que a resposta o devolveria, ressentido e inteiro, ao espelho.