O apagão que levará à luz: o colapso de Cuba é uma inevitabilidade lógica e não uma conspiração externa

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Da mesma forma que quase todos os dias novas experiências na Física demonstram que Einstein tinha razão na sua Teoria da Relatividade Geral, sempre que mais um regime comunista apodrece de vez pelos alicerces, a chamada "Escola Austríaca" de Economia (que em Portugal é vituperada como a 'raiz de todos os males' do 'neoliberalismo') volta a sair vencedora na descrição de como as relações económicas funcionam. Ou melhor, para miséria de milhões, não funcionam.

O colapso total da rede elétrica de Cuba neste 16 de março de 2026 não é um ‘cisne negro’, nem o resultado de uma cabala em Washington. É o veredicto final de uma lei económica tão imutável como a gravidade. Enquanto a narrativa oficial — e os seus repetidores de serviço na Europa — insiste no "bloqueio americano" como o culpado de todas as maleitas, a realidade física das centrais termoelétricas desintegradas conta uma história diferente: a história de um sistema que tentou abolir o mercado e acabou por extinguir a luz.

Ludwig von Mises avisou-nos logo em 1920: o socialismo é impossível, porque elimina a propriedade privada e, com ela, os preços de mercado. Sem preços, não há cálculo económico. Há 60 anos que o regime em Havana tem andado a ‘voar às cegas’. Se não existe um sistema de preços que indique a escassez relativa de recursos, o ‘planeador’ não sabe se deve gastar o pouco petróleo que tem numa central elétrica, num hospital ou num hotel para turistas. O apagão atual é o resultado de décadas de alocação de recursos baseada em critérios políticos e não em sinais económicos.

A esta cegueira junta-se o que Friedrich Hayek chamou de "arrogância fatal". O conhecimento necessário para gerir uma infraestrutura complexa. como uma rede nacional de energia. está disperso por milhares de técnicos e operadores locais. Ao centralizar todas as decisões num comité em Havana, o regime destruiu a capacidade de resposta ao imprevisto. A informação tática — aquela turbina que precisava de manutenção, aquele cabo que sobreaquecia — nunca chegou ao topo de forma útil. Não é uma questão de o sistema não se ter adaptado… Ele simplesmente partiu-se sob o peso da sua própria ineficiência informativa.

Já o tínhamos visto na URSS. Mas, claro, ainda hoje há quem ‘pinte’ essa história de outras cores.

A teoria da exploração marxista, que sustenta que Cuba é uma vítima do ‘imperialismo’, é desmontada pela lógica da preferência temporal de Eugen von Böhm-Bawerk. Uma rede elétrica é "tempo cristalizado" (capital). Para manter as centrais a funcionar em 2026, seria necessário ter poupado e investido em 2010 ou 2020. Mas o regime cubano tem uma preferência temporal altíssima: consumiu todo o capital herdado e todos os subsídios externos (russos e venezuelanos) para manter o aparelho repressivo e o consumo imediato.

Ao proibir a acumulação de capital privado, o regime impediu que os cubanos investissem no seu próprio futuro. O colapso de hoje é a conta do tempo a chegar ao guichet. O "bloqueio" não impediu a manutenção das centrais — o que a impediu foi a destruição da poupança interna por um sistema que devora o amanhã para sobreviver ao hoje. (A fazer lembrar os modelos de pensões da Segurança Social em certos países… Mas isso é uma história para outra altura!)

Finalmente, Carl Menger ensinou-nos que o valor é subjetivo. O regime cubano apostou a sua sobrevivência no açúcar e no petróleo barato, acreditando que o esforço (trabalho) investido nessas áreas garantiria o sustento da revolução. Mas o mundo deixou de valorizar o açúcar cubano e os parceiros deixaram de subsidiar o petróleo. Sem um mercado livre para redirecionar recursos para o que os consumidores realmente valorizam, a economia cubana transformou-se num museu de indústrias obsoletas. Um país que não gera valor subjetivo para o resto do mundo não consegue divisas; sem divisas, não compra combustível, mesmo que os EUA não existissem no mapa.

Sim, porque o embargo americano não é mais do que um ruído estatístico numa equação de falência sistémica. Se o regime tivesse dinheiro, compraria petróleo em qualquer mercado (como a Rússia ou a China o fazem). O problema de Cuba não é não ter permissão para comprar, é não ter com que pagar, porque o seu sistema económico é um motor de destruição de riqueza.

Para o iletrado económico, o culpado é o "bloqueio". Para quem olha para os factos com a lucidez da Escola Austríaca, o culpado é a tentativa arrogante de substituir a liberdade individual e o sistema de preços pela vontade de um punhado de burocratas. Infelizmente para os milhões que lá vivem, em Cuba, a única coisa que o socialismo conseguiu distribuir de forma igualitária foi a escuridão.

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