Nós ensinámo-los

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Numa declaração aduaneira chinesa, em 2024, um motor de aviação foi descrito como unidade de refrigeração industrial. Não era. Era um L550E fabricado em Xiamen, com destino à fábrica de Izhevsk que monta o Garpiya, o drone que a Rússia lança contra cidades ucranianas a um ritmo de cerca de 500 por mês. Aquela linha falsa regista um preço, e o preço não é o do motor.

A tese corrente diz que a China apoia a Rússia. É verdade e é insuficiente. Pequim dá o bastante para que a Rússia não perca, nunca o bastante para que ganhe, e nunca de forma tão ostensiva que se exponha. Um limite mantém o Ocidente desgastado. Outro mantém Moscovo dependente. O terceiro protege o acesso chinês ao mercado europeu e ao sistema financeiro americano, que valem mais do que a Rússia inteira.

Comece-se pelo dinheiro. A campanha ucraniana de drones pôs a refinação russa no valor mais baixo em 24 anos, com perto de um quarto da capacidade parada. O efeito é perverso: sem poder refinar, Moscovo exporta crude em bruto, e o crude tem essencialmente dois compradores. As importações chinesas de crude russo subiram 13% só em Junho. Cada refinaria atingida aperta o nó que liga o orçamento de guerra a Pequim.

Depois a tecnologia, onde o Garpiya é o caso mais fotogénico e não o mais grave.

Os Kalibr e os Iskander voam com microelectrónica que a Rússia não sabe fabricar: chips ocidentais que entram por intermediários da China continental e de Hong Kong, hoje o maior centro mundial de reexportação de tecnologia desviada, e chips chineses que ocuparam o lugar dos fornecedores ocidentais. Somem-se as máquinas-ferramenta, as ópticas térmicas, os químicos dos propulsores. 90% dos bens sensíveis que a Rússia importa vêm da China.

Que isto é coleira e não amizade, vê-se quando Pequim recua. Em 2025 bastou a União Europeia sancionar dois pequenos bancos chineses da fronteira para ambos cessarem os negócios com a Rússia; e quando o Tesouro americano designou a Rosneft e a Lukoil, as petrolíferas estatais chinesas suspenderam de um dia para o outro as compras marítimas.

A linha vermelha da China não é traçada pelas necessidades de Moscovo, é traçada pela exposição de Pequim. Um beligerante que não controla o motor do seu drone, nem o comprador do seu petróleo tem margem táctica e não tem margem estratégica. Isso tem um nome antigo: vassalagem.

Conheci Nikolai Patrushev em Moscovo, na sede do FSB, em 1999, o ano em que sucedeu a Putin à frente do serviço. É a encarnação do silovik: sempre à sombra de Putin, nunca contra ele, um dos pilares em que o regime assenta.

As suas palavras pesam por isso. Em Julho, confrontado com a liderança chinesa na construção naval civil, respondeu que a China aprendeu tudo com eles. Nós ensinámo-los. E rematou que a Rússia não deve esperar que os chineses lhe ensinem seja o que for.

A frase tem dois destinatários. Para fora é altivez. Para dentro, que é o que interessa, é uma mensagem de força a um regime que vê Putin fragilizado e precisa de ouvir que a Rússia não deve nada a ninguém. Só que é verdadeira e irrelevante: a paternidade é histórica, a capacidade é presente. A China constrói perto de 60% da tonelagem mercante mundial, e o próprio Patrushev admite que aos estaleiros russos sai mais fácil construir navios de guerra do que civis. Formou-se no instituto de Leninegrado, onde hoje são milionários chineses a financiar as bolsas.

Está aqui o ponto em que quase todas as análises falham. A Rússia não está esmagada em investigação: conserva escolas de projecto boas em submarinos, propulsão nuclear, guerra electrónica e mísseis. Onde está exaurida é na capacidade de produzir em série, e é isso, não o talento dos seus engenheiros, que faz uma potência militar. Desenhar um motor não é quase nada. Fabricar seis mil por ano, com continuidade e sob pressão, é tudo. Foi por isso que o L550E teve de vir de Xiamen dentro de uma caixa que dizia frigorífico.

E é aqui que a lição deixa de ser russa. Os Estados Unidos nunca ganharam guerras por serem os mais inspirados: ganharam-nas por produzirem mais, e em 1945 foi a linha de montagem que decidiu.

Hoje a sua maior fragilidade, talvez a única, é essa. O Exército queria cem mil projécteis de 155 milímetros por mês e em Março produzia 36 mil; a reposição dos mísseis gastos no Médio Oriente mede-se em anos.

Se é esse o problema da maior potência industrial do Ocidente, imagine-se o nosso. A Europa tem investigação, tem engenharia e tem projecto. O que não tem, em quase nada do que conta, é escala. E quem não fabrica em série não decide quando começa, nem quando acaba uma guerra. Decide outro por ele.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

Diário de Notícias
www.dn.pt