Aguerra no Irão constitui uma violação do Direito Internacional e revelar-se-á um erro estratégico. A evidência é tal que Keir Starmer, Emmanuel Macron e Giorgia Meloni, de famílias políticas diferentes, o subscrevem sem grande problema.Mais longe foi Pedro Sánchez, que tanto entusiasma as redes sociais e o comentário português, duas categorias cada vez mais sobrepostas. Em manifesto confronto com Washington, adoptou uma retórica populista feita de afirmações falsas e promessas impossíveis.Ao contrário do que foi dito, as bases militares espanholas são usadas por aeronaves norte-americanas. Também ao contrário do que foi garantido, Espanha enviou uma fragata para Chipre. Discurso e realidade ficaram de costas voltadas. Mas a vontade de conflito com os Estados Unidos da América é inegável.Romper a relação transatlântica criará problemas sérios a Espanha em três áreas geográficas vitais para a sua política externa. Primeiro, a América Latina, que virou à direita, hoje com muitos governos próximos da Administração Trump. A região figura na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos como prioritária, o que significa que a atenção e o esforço que Washington está disponível para dedicar às Américas Central e do Sul são absolutos.Segundo, o chamado Mundo Árabe, cuja maioria relevante alinha com os Estados Unidos e Israel na ofensiva contra Teerão. Importa destacar o caso de Marrocos, que mantém relações com Trump há anos e foi o sexto país árabe a reconhecer Israel. Para Espanha, Marrocos tem a dupla condição de parceiro fundamental e ameaça latente: é imprescindível para combater a imigração ilegal, o narcotráfico e o terrorismo, nunca hesitando em usar este papel como forma de chantagem; e é uma ameaça para os enclaves de Ceuta e Melilla.Por fim, a Europa. Após criticar a guerra, Meloni anunciou uma colaboração estreita com as grandes potências europeias para apoiar os seus aliados. Quem são estas potências? Reino Unido, França, Alemanha e Itália. Espanha, que é uma grande potência económica e militar, não entra nas contas. Até num continente dividido Sánchez ficou isolado.Um chefe de Executivo tem por missão defender os interesses do seu país no mundo. Logo, a posição incendiária de Sánchez é errada, pois ao comprometer a relação com Washington prejudica a projecção de influência espanhola na América Latina, no Mundo Árabe e na Europa.Ainda assim, no Observador, Jorge Fernandes louvou a postura do presidente de governo espanhol pelas vantagens domésticas que obterá: une a esquerda, capitaliza o velho anti-americanismo espanhol, disfarça a catadupa de casos de corrupção que cercam o PSOE (e o próprio Sánchez) e ainda ganha um bode expiatório para justificar os males pátrios presentes e futuros. Conclui-se, portanto, que Sánchez sacrifica os interesses estratégicos de Espanha em benefício de cálculos eleitorais. Não creio que seja de louvar.Em breve saberemos se a táctica dá frutos. Espanha iniciou em dezembro um ciclo eleitoral importante que terminará com legislativas em 2027 - provavelmente serão antecipadas para este ano.Até ver, o PSOE sofreu derrotas históricas na Extremadura e em Aragão. No momento em que escrevo, ainda não são conhecidos os resultados de ontem, em Castela e Leão, onde o ‘No a la guerra’ foi o slogan de campanha e o seu autor, o socialista José Luis Rodriguez Zapatero, uma presença incansável. Veremos o que acontece na Andaluzia, em Junho.Por ora, note-se a tremenda ironia de ter o governo mais à esquerda na História da democracia espanhola a adoptar uma postura não-beligerante e não-alinhada. Se fosse vivo, Franco estaria divertidíssimo. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.