Não foi o suficiente em Espanha

Diogo Noivo

Politólogo

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O governo de Espanha não tem uma maioria funcional no Congresso. O bloqueio parlamentar é de tal ordem que o país vai para o quarto ano (na prática, uma legislatura inteira) sem Orçamento do Estado. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

Em Novembro de 2025, o fiscal geral do Estado, cargo equiparável a procurador-geral da República, foi condenado em tribunal por violar o segredo de Justiça em benefício do PSOE e do governo, e para atacar a oposição. Portanto, um homem que não estava ao serviço da lei, mas ao serviço do poder. Nunca um fiscal geral tinha sido condenado. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

Em Janeiro de 2020, a então vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, aterrou em Madrid, apesar de estar submetida a sanções europeias que a proibiam de entrar em território da União. Com a anuência de Pedro Sánchez, teve uma reunião clandestina com um ministro espanhol. Relatos de “malas pesadas” descarregadas da aeronave de Rodríguez sugerem que, entre outras coisas, se tratou de um expediente para branquear capitais do regime venezuelano e dos seus dirigentes. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

O ministro que reuniu com Delcy, José Luis Ábalos, foi condenado a 24 anos de prisão por organização criminosa, corrupção, peculato e tráfico de influências. Note-se que estes crimes não estão relacionados com o encontro com a vice-presidente da Venezuela. Referem-se a escândalos diferentes, o que revela bem o modus operandi de Ábalos, homem que durante anos foi o braço-direito de Sánchez no partido e no governo. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

De resto, a família, o partido e o governo de Pedro Sánchez estão cercados por processos judiciais de manifesta gravidade. A corrupção está longe de ser uma novidade na política espanhola, mas atingiu nos últimos anos patamares inéditos. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

A propósito, uma destacada militante do PSOE organizou um grupo para condicionar juízes, polícias e testemunhas envolvidos nos casos que rodeiam Sánchez. Existem fortes indícios de que o fez sob ordem da direcção do partido.

Entre outras diligências, a militante contactou narcotraficantes para que dessem “um susto” à juíza que investigou o irmão do presidente de Governo. Em declarações já públicas, a juíza disse saber que os seus filhos foram vigiados na escola que frequentam. Não foi o suficiente para antecipar eleições.

No decurso dos 8 anos de Pedro Sánchez no poder, houve um acosso reiterado a órgãos de comunicação social. Com Pablo Iglesias como vice-presidente de Governo, as conferências de imprensa do Conselho de Ministros serviam para, com nomes e apelidos, sinalizar jornalistas inimigos do poder, prática até então reservada a caudilhos da América Latina.

Hoje, ministros em funções usam as suas redes sociais para ataques desabridos à imprensa. O próprio Sánchez recorre ao termo “fachosfera” para designar o que considera ser a extrema-direita, espaço onde inclui vários jornais, rádios e televisões (e o Poder Judicial). A Federação das Associações de Jornalistas de Espanha e a Associação de Imprensa de Madrid emitiram várias declarações a denunciar os abusos.

Mais recentemente, soubemos que o Ministério do Interior elaborou uma longa lista de jornalistas e comentadores, classificando-os em função da sua lealdade ao governo. Nada disto foi suficiente para antecipar eleições.

Só a falta de espaço nesta página impede que a lista continue. Muito mais há a dizer sobre atropelos à Constituição, antiparlamentarismo, colonização de instituições, desmantelamento do Estado e manipulação política de crises (vide a catástrofe natural DANA, em Valência, ou o sucedido este Verão em Ceuta). Por comparação, as suspeitas de financiamento ilegal do PSOE são um assunto menor.

As eleições legislativas em Espanha, no dia 29 de Novembro, não serão sobre esquerda e direita. Nem sobre habitação, economia, impostos, segurança ou imigração. O que está em causa, e urge, é a restauração de níveis mínimos de lisura institucional e de obediência ao Estado de Direito. Esperemos que seja o suficiente para evitar males maiores.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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