Nas relações amorosas o 'benching' online é “ficar no banco e não ir a jogo”?

Ivone Patrão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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Sim. É manter uma relação “amorosa” intermitente. Até pode ter existido um encontro presencial, mas a relação é mantida online. Existem muitas possibilidades que vão dar ao mesmo resultado: “está convocado/a, mas não foi a jogo”. Um dos lados desaparece de vez em quando, ou até pode ser à vez.

A comunicação surge por sinais mínimos de “vida” online, como por exemplo: um “olá”, sem dizer mais nada; um like ou um só comentário a uma foto; ou até uma mensagem escrita ou de voz associadas a um registo de flirt – tudo isto sem dar manter interação ao longo do tempo.

Do lado de quem pratica o benching podem ser mantidas conversas online, com outras pessoas, até decidir em quem vai investir e se, realmente, há interesse em avançar para uma relação de mais proximidade. É manter sempre algum contacto, alguma “chama acesa”, ainda que a clara opção é “manter a pessoa em espera do “outro lado da linha” ou em “banho-maria”.

Há um padrão de resposta: são evitados encontros e chamadas em áudio ou vídeo; a resposta é sempre tardia e de forma curta; há sempre uma resposta, para não cortar a ligação e alimentar uma esperança, contudo não há progresso na relação; a resposta pode surgir porque há conveniência, para combater a carência, o aborrecimento, ou porque alguém terá feito ghosting (desapareceu, deixou de responder, deixando de ser uma possível escolha).

A investigação nesta área dos relacionamentos “amorosos” intermitentes ainda é escassa. Os termos usados são: benching, breadcruming (dar migalhas de atenção, de vez em quando), ghosting (desaparecer), hauting e orbiting (aparecer de vez em quando, por exemplo, por visualizações de conteúdos ou uso de emojis), rejeição ambígua e dinâmicas de rejeição nas dating apps. Os dados indicam que, para quem pratica, pode haver a necessidade de não assumir compromissos, um padrão de relação mais evitante e com dificuldade na intimidade, a procura de sexo casual, ou até necessidade de ter sempre alguém disponível (e assim, ter múltiplas opções), de forma a receber atenção e validação, que pode também estar associado ao adiar de uma decisão, por incerteza quanto ao que sente (gosto ou não gosto?) ou por dificuldade no confronto (estou ou não interessado/a?).

Este tipo de interação tem efeitos negativos no estado emocional e no bem-estar de quem está do outro lado, sobretudo, maiores níveis de ansiedade, de ruminação sobre o significado a dar ao comportamento ambíguo, com risco de haver uma culpabilização (fiz ou não algo de errado?), o que pode levar a um evitamento de relacionamentos no futuro próximo e uma menor satisfação nessa área.

A ambiguidade na resposta, e a inexistência de uma resposta direta – não, não quero assumir nenhuma relação amorosa – pode aumentar a dificuldade de desligar deste estilo de comunicação. E assim, acaba por existir um ciclo de resposta onde há o risco de normalizar e aceitar a comunicação mínima.

Quando abordamos este tema com os jovens e adultos que navegam nas dating apps é muito comum relatarem experiências idênticas – “sim, já me aconteceu”, “no início não percebi logo, depois vi que era um padrão”.

Estas afirmações geralmente vêm acompanhadas de soluções para não “cair no mesmo erro” – “passei a privilegiar videochamadas”, “se não houver encontros marcados, deixo de investir”, “a certa altura pergunto se há ou não interesse em conhecer-me”.

A questão passa pela definição do que se pretende numa relação amorosa, que no mundo atual, passou a ter uma componente online. Para quem define que quer ir “a jogo”, acredita que as relações se constroem com comunicação, investimento, e por isso, solicitam clareza e definem limites, protegendo assim a sua autoestima e o seu bem-estar. Não ficam no “jogo do gato e do rato” e apostam em literacia relacional e digital.

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