A 22 de maio, na Cidade do México, a União Europeia assinou com o México a modernização de um acordo que tem um quarto de século. Esta semana, o Conselho concluiu o processo interno; em agosto, o novo quadro comercial entra em vigor. Num mundo que se fecha, a Europa fez bem em abrir uma porta.Não é um gesto menor. O comércio entre os dois blocos ultrapassa os cem mil milhões de euros anuais. O acordo elimina a maior parte das tarifas remanescentes, abre a contratação pública mexicana às empresas europeias, protege as indicações geográficas e cria regras para o comércio digital e as matérias-primas críticas. Mais de 45 mil empresas europeias exportam para o México, a esmagadora maioria PME. Num momento em que Washington transforma tarifas em arma política e Pequim usa a dependência como alavanca, diversificar não é opção ideológica, é mesmo um seguro de vida.Para Portugal, as oportunidades são concretas: os nossos vinhos e azeites protegidos num mercado de 130 milhões de consumidores, os concursos públicos abertos à engenharia e construção nacionais.Mas seria ingénuo reduzir esta parceria a pautas aduaneiras. Como relatora do PPE para o pilar político deste acordo, fiz questão de que a mensagem ficasse clara e sem eufemismos: o México é hoje um país corroído pelo narcotráfico, onde o crime organizado capturou territórios, portos, alfândegas e instituições inteiras. É o país de mais de cem mil desaparecidos, de jornalistas assassinados com regularidade obscena. Não podemos ignorá-lo e não o ignorámos. Deixámo-lo escrito.A esta erosão soma-se o ataque à independência judicial. A reforma que sujeitou os juízes mexicanos a eleição popular fragilizou a separação de poderes e expôs a Justiça à pressão política e, inevitavelmente, à do crime organizado, que sabe financiar campanhas.Para as empresas europeias, isto é o risco de litigar em tribunais capturados. Por isso o capítulo de proteção do investimento do novo acordo garante mecanismos de resolução de litígios independentes das jurisdições locais e regras contra a arbitrariedade. Num país onde a Justiça está sitiada, essa segurança jurídica é a condição para que o comércio prometido se transforme em investimento real.O pilar político do Acordo Global Modernizado, com a sua cláusula de Direitos Humanos e mecanismos de diálogo, não pode ser ornamento retórico. Insistimos em contrapartidas exigentes: cooperação judicial efetiva, combate ao branqueamento de capitais que os cartéis fazem circular, proteção real de jornalistas e defensores de Direitos Humanos.Sim ao México, portanto. Sim ao comércio, à diversificação, à presença europeia na América Latina. Mas de olhos abertos e com a exigência política à altura da ambição económica. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico.