Num mundo marcado por fragmentação geopolítica, tensão comercial e polarização interna, a preservação das democracias tornou-se uma prioridade central da política externa de países como o Canadá. A questão já não é apenas económica ou securitária. É institucional. É cívica. É sobre confiança.Em Davos, o nosso primeiro-ministro, Mark Carney, sublinhou que as democracias precisam de instituições fortes, de coesão social e de cooperação entre países que partilham os mesmos valores. Num contexto de crescente competição entre modelos políticos, as potências médias não podem agir isoladamente. Precisam de reforçar alianças, investir no multilateralismo e consolidar a sua própria resiliência interna.É neste quadro que iniciativas culturais podem assumir um significado estratégico.No Canadá, o Black History Month é mais do que uma celebração. É parte de um compromisso contínuo com uma democracia plural, onde reconhecer os contributos de todas as comunidades reforça a legitimidade das instituições. A inclusão não é apenas uma questão de justiça; é uma condição de estabilidade.Há três anos, trouxemos a celebração dessa efeméride para Portugal. Não com o propósito de exportar um modelo, mas como convite ao reconhecimento de todos na própria História Portuguesa. Ao longo deste período, a Embaixada encomendou 12 retratos de figuras negras portuguesas, históricas e contemporâneas, cujas contribuições ajudaram a moldar o país. Esses retratos foram apresentados em três galas públicas, numa exposição, e discutidos em encontros institucionais que reuniram representantes do Estado, da sociedade civil e do corpo diplomático lusófono.Esta efeméride conferiu igualmente uma dimensão de reciprocidade histórica à relação entre os nossos dois países. Uma das primeiras figuras negras documentadas na História do Canadá é Mathieu da Costa, intérprete nas viagens atlânticas do século XVII, provavelmente de origem lusófona. A sua presença lembra-nos que as Histórias do Canadá e do mundo de língua portuguesa estão entrelaçadas há séculos. Reconhecer essa ligação é reconhecer que a História Atlântica é partilhada.Num momento em que o debate público em várias democracias se torna mais polarizado, em particular em torno das migrações e da identidade nacional, valorizar narrativas de pertença e o diálogo são formas de fortalecer o espaço democrático. Não se trata de negar desafios, mas de evitar que a fragmentação social enfraqueça instituições e confiança.Portugal ocupa um lugar singular neste contexto. Como sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é ponto de encontro entre continentes e Histórias. A CPLP representa uma comunidade de Estados com trajetórias distintas, mas unidos por uma língua e por um compromisso com cooperação e governação democrática.O Canadá, enquanto observador associado, vê neste espaço uma oportunidade estratégica para as potências médias trabalharem juntas. Num cenário global dominado por grandes rivalidades, países que valorizam o Estado de Direito e o multilateralismo podem desempenhar um papel estabilizador quando potenciam normas partilhadas e promovem inclusão institucional.O Mês da História Negra em Lisboa foi concebido como iniciativa catalisadora. O objetivo sempre foi que a liderança se tornasse progressivamente local. O facto de autoridades e atores portugueses estarem agora preparados para assumir essa continuidade é sinal de maturidade democrática e de apropriação genuína.Democracias preservam-se não apenas através de políticas externas ou económicas, mas também pela forma como contam a sua História. Sociedades que reconhecem plenamente os contributos de todos os que as constroem são mais coesas, mais resilientes e mais preparadas para enfrentar a incerteza.Num tempo de transformação da ordem mundial, países alinhados em valores semelhantes fortalecem-se cooperando e investindo na inclusão como base da sua própria estabilidade.