É sempre bom voltar a Moçambique, com o desejo de encontrar um país melhor do que aquele que observei na visita anterior.
Procuro sinais de progresso nos pequenos pormenores: o jardim arranjado, o hospital que ganhou nova valência, a oposição que foi respeitada numa autarquia distante ou até aquela árvore que continua a florir, desafiando os tempos difíceis. Mas, acima de tudo, procuro a esperança das pessoas. Tento perceber se continua vivo o sentimento de que amanhã poderá ser melhor do que hoje, e se subsiste a confiança nas instituições que governam o país.
Nesta visita encontrei alguns motivos de satisfação. As empresas do gás regressam à atividade em Cabo Delgado, a ponte para a Catembe já faz parte da paisagem e a estrada para a Ponta do Ouro melhorou as acessibilidades.
Tive também oportunidade de acompanhar um projeto da União Europeia de reforço do sistema judicial moçambicano. O projeto apoiou a formação de magistrados e funcionários, o acesso digital à legislação e jurisprudência, a elaboração de guias para profissionais e cidadãos, entre outras ações. Um esforço destinado a tornar a Justiça mais transparente, mais acessível e menos vulnerável à corrupção.
Foi gratificante verificar o contributo de instituições portuguesas neste trabalho. O Observatório Permanente da Justiça da Universidade de Coimbra e o Conselho Superior da Magistratura deixaram uma marca de competência, ética e profissionalismo. Um exemplo daquilo que a cooperação deve ser: conhecimento, trabalho em proximidade com os parceiros e compromisso com a sustentabilidade dos resultados.
Mas nem tudo o que vi foi animador. A situação económica e financeira do país é grave. O turismo sofreu uma quebra. Muitos interlocutores manifestaram preocupação com o futuro da ajuda internacional após a redução do apoio norte-americano, receando-se que a União Europeia possa também limitar o seu envolvimento.
O que mais me impressionou, contudo, foi a fragilidade da confiança nas instituições. Não desapareceu, mas parece mais débil do que no passado. As feridas deixadas pelas tensões e conflitos associados aos últimos ciclos eleitorais continuam presentes.
Sem confiança nas instituições, será difícil enfrentar os desafios políticos, económicos e sociais dos próximos anos, recuperar as Finanças Públicas e consolidar a estabilidade política. Foi essa sensação que me fez regressar preocupada. No fim de contas, a confiança não é apenas mais um problema para resolver: é a condição indispensável para resolver todos os outros.
P.S. Nos mercados vendem-se camisolas dos grandes clubes portugueses e nas ruas acompanham-se os seus resultados com a mesma paixão que em Portugal. Talvez a RTP África pudesse transmitir alguns dos principais jogos da Primeira Liga, apenas para fora. Fica a sugestão para o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele sabe que não é apenas sobre futebol. É sobre os laços afetivos que podem unir Portugal e Moçambique.