A Europa não sabe com rigor quantas pessoas entram, saem, permanecem ou desaparecem dentro das suas fronteiras. Sabe-o apenas por sistemas "legais" porosos, por recenseamento ou por notícias avulsas. É essa ignorância estrutural e não apenas o desafio de Marrocos a Sánchez ou o oportunismo eleitoral de Meloni, Le Pen ou Ventura, que nos deveria preocupar, face ao caos da política migratória europeia, que se vem agravando ano após ano.Ceuta foi um teste de stress a uma fronteira física. Mas o verdadeiro teste, que ninguém quer fazer, é ao sistema de informação que deveria sustentar qualquer política migratória séria, que a Europa reprova sistematicamente. A União Europeia debate quotas, acordos com países terceiros, controlos de fronteira reintroduzidos por decreto unilateral, como fez a Itália na semana passada em violação do acordo de Schengen, mas fá-lo sem base factual comum. Cada Estado-membro conta os seus próprios números, ao sabor dos ciclos eleitorais. Não há um registo único, interoperável e biometricamente fiável de quem está, legal ou irregularmente, em território europeu e qualquer Estado terceiro pode instrumentalizar vagas de fluxos humanos como arma híbrida, sabendo que a Europa reage por imagens nas redes sociais e por pânico.Mas há algo que a Europa raramente admite. O verdadeiro regulador dos fluxos migratórios nunca foi, na prática, a política declarada nas cimeiras, mas três fatores concretos: o desenvolvimento económico das regiões de origem; o mercado de trabalho de destino, que absorve ou rejeita quem chega, consoante a procura real de mão de obra; e a segurança, entendida como a capacidade do Estado de identificar e integrar quem está no seu território. As políticas que ignoram estes reguladores naturais acabam por evoluir de forma descontrolada.A União Europeia já tem alguns tijolos, como o Eurodac, o Sistema de Informação de Vistos, o futuro Entry/Exit System e o ETIAS. O problema nunca foi a ausência de bases de dados, mas a sua fragmentação. Dez sistemas que não falam entre si não são interoperabilidade, são uma ilusão burocrática, como o conceito de "estatuto migratório", definido de formas distintas em cada Estado membro.Um sistema europeu de registo biométrico generalizado, na sequência do eIDAS, com identidade única, verificável, interoperável entre fronteiras externas e capaz de interagir com o mercado de trabalho e os serviços públicos, não é uma fantasia securitária de extrema-direita. É a pré-condição para qualquer política humanista funcionar. Sem se saber onde estão os imigrantes, a Europa não consegue proteger quem tem direito a proteção, nem regularizar quem tem direito a regularizar-se, nem acionar o retorno de quem não tem esse direito. Governa-se hoje por adivinhação e isso só serve para alimentar guetos de exclusão, medos e o voto na extrema-direita.Um sistema de registo fiável permite limites de circulação transfronteiriça calculados e não decretados por pânico. Em vez de a Itália suspender Schengen sem fundamento técnico ou de a Espanha ser apanhada de surpresa por dezenas de milhares de pessoas em 24 horas, dados agregados em tempo real permitiriam decisões objetivas, com solidariedade obrigatória entre países, quando um limiar de chegadas fosse ultrapassado. Isto substituiria a lógica de "cada um por si", que Marrocos, a Turquia ou a Bielorrússia exploram ao escolher a fronteira mais fraca.A distinção entre refugiado, requerente de asilo e migrante económico continua nebulosa e é politicamente conveniente que continue. Um sistema fiável permitiria cruzar as necessidades reais do mercado de trabalho com o perfil de quem chega, tratando o emprego como um filtro oficial, que espontaneamente já o é, na prática. Portugal conhece bem o que se passa na agricultura do Alentejo e na construção, onde há procura real, que continua a ser preenchida na sombra por via informal e sem registo.O que se passa hoje no nosso país é o oposto de uma "boa burocracia", que deveria reconhecer direitos e cumprir deveres de forma transparente e realista. Tolera-se a permanência de milhares de imigrantes irregulares, enquanto se subcontrata a privados o controlo dos que chegam por via "legal", num circuito onde certidões de proveniência duvidosa são "lavadas" e inseridas nos sistemas oficiais. Um registo biométrico público e auditável, sob controlo direto do Estado, é a única política ativa de imigração legal capaz de reduzir a procura pelas redes de tráfico e a fraude documental que o modelo atual permite.Talvez o argumento mais honesto a favor deste registo não seja securitário, mas de controlo da capacidade do Estado. Nenhum dos sistemas de Saúde, Educação ou Habitação, em Portugal ou na Europa, sabe hoje quantas pessoas vão precisar dos seus serviços num horizonte de seis a 24 meses. Sem esses dados, cada vaga migratória colide com escolas sem vagas, centros de saúde sem médicos e municípios sem habitações, fazendo crescer a frustração capturada pelo populismo, que se apressa a culpar o imigrante, esquecendo o planeamento público.Ceuta não foi apenas um teste de Marrocos à Espanha ou à solidariedade europeia. Foi um teste à recusa europeia em construir a infraestrutura de informação de que precisa para ser um espaço de Direitos Humanos, integração regulada e um espaço com fronteiras que funcionem de facto. Sem desenvolvimento económico partilhado, sem mercado de trabalho regulado e sem segurança baseada em dados, nenhuma quota resolve o problema. Um registo biométrico fiável, ligado a capacidades reais de trabalho, saúde, educação e habitação, é a única forma de tornar o humanismo europeu seguro e sustentável.