"Vêm de longe os corsários / sem pressa para atracar / navegadores solitários / na grande casa do mar. // Já sem terras para achar / já perdidas as conquistas / navegam a procurar / as paisagens nunca vistas. // Corsário é aquele que está / onde parece não estar / o que busca o que não há / e outro mar em cada mar (…)” (p.69).É este o poema que dá título ao mais recente livro de poemas de Manuel Alegre, Balada do Corsário dos Sete Mares (Dom Quixote), um livro breve que, constituído por oito secções, adquire uma importância axial no conjunto da obra poética de Alegre pelo que nestes poemas há de revisitação de tempos antigos, os quais são, na essência, tempo poéticos, releituras da tradição literária, seja ela a camoniana – o mais perene poeta da tradição camonista é Manuel Alegre, fidelíssimo a esse eco da épica na lírica – ou a mirandina, pelo que de sol negro da melancolia existe em muitos passos deste belo e singelo livro.“Quatro Poemas”, assim começa este volume. Logo o poema de abertura nos coloca perante o sinal da homenagem: são poemas dedicados a Nuno Júdice (1949-2024), primeiramente publicados na revista que Júdice então dirigia, em 2022, a Colóquio-Letras. Transplantados para este livro, estes quatro poemas de elegíaca toada – apesar da frase coloquial e o registo familiar-corrente – como que definem o desenho do livro, a sua música, a sua arquitectura: “Não tires o caderno do fundo da mochila / as águas invadem as ruas / arrasam casas / pontes desmoronam-se. / Há palavras a boiar na boca das pessoas / cães a uivar em cima dos telhados / uma criança segura um papel em branco / não tires o caderno da mochila / tudo está dito naquele papel em branco.” (p.11).A conversa com um tu-destinatário que é prosopopeia de um tempo, mas, e sobretudo, a imagem das águas invadindo ruas, pontes que se desmoronam, palavras que boiam na boca das pessoas e cães uivantes, ou o símbolo da criança que segura o papel em branco, eis os sinais, os indícios que levam ao significado profundo (a um dos significados) deste livro: o regresso às origens, a revisitação das eras que sobre as eras pesaram, e passaram. E por isso o título: “Temporal de Verão”, de davidiana ressonância (“tempestade de Verão), mas, em Alegre, o tema “temporal” ressemantiza-se: é o tempo em temporal, a vertigem dos tempos aquilo que o poeta questiona e com que se confronta.Confrontação com o tempo e com outra dimensão da temporalidade: o tempo da poesia, ou do poema. É no poema, na sua escrita, que se experimentam as armadilhas (“numa estrofe / de onde é difícil regressar”), afinal, similares à vida. Manuel Alegre, que em toda a sua obra, desde Praça da Canção (1965) se declarou (disse-o Eduardo Lourenço) poeta das formas fixas que procuram estabilizar um mundo em camoniana mudança (e por isso a canção, a balada, o soneto, a quadra, o epigrama), de novo reitera essa vontade de poesia que é vontade de fixar, de estabilizar já não só o mundo, mas o tempo e o seu escoar-se.."‘Balada do Corsário dos Sete Mares’ é um ponto de chegada que Manuel Alegre talvez tivesse traçado no portulano da sua aventura de poeta empenhado, comprometido com ideais.”.Por isso, a segunda secção, “Tempo do Avesso” é duplamente significativa: tempo do avesso porque tempo – o nosso – “obscurecido / tempo sem certeza do amanhã”, mas tempo do avesso (ou do in-verso), porque o poeta busca “um tempo e a busca é vã / não há barcos na linha do horizonte”, pois que são os aviões que subvertem o som do mar. Daí a nota melancólica, iluminada pelo sol da melancolia: “Minha canção é uma nota anoitecida / tempo de já ter visto e de ter sido”, porque se sabe agora que “há sombras nas metáforas e na vida” (p.19). Tempo vivido do avesso, mas que o poeta confronta, denunciando os horrores em Gaza, o míssil que é o projéctil que impede o projecto da poesia (em “Míssil”, sobre os bombardeamentos de Kiev), encaminhando o livro para uma terceira secção, em que as aves ominosas mirandinas, mas também de eco gastoniano, um seu contemporâneo, ambos de uma geração que viveu a Guerra Colonial e sabe quanto as aves eram aviões da guerra, signos nefastos; aí, nessa terceira parte, ou andamento, dir-se-á: “As aves voam por dentro / levam no bico a viagem / as aves loucas da escrita / as aves que estão no centro (…).” Entenda-se: no centro, as aves da escrita, do problema-tempo. Talvez por isso, como lemos nos belíssimos versos calibrados, ritmicamente impecáveis deste livro, onde se balanceiam heptassílabos e octossílabos, decassílabos e redondilha menor, numa sageza métrica que funda as suas raízes no cancioneiro ibérico, Manuel Alegre não hesite em tecer sobre o tempo motivos clássicos: o barco, transporte no tempo em direcção a um “porto abstracto/ que fica no que não há” (p.27).Nas IV e V partes, descendo à arte da palavra, relendo Wallace Stevens e a sua “ficção suprema”, Alegre renova a fidelidade à palavra poética: o poeta não aponta os versos que chegam, pois o poema é muitas vezes feito de versos que não se escrevem. O poema será, pois, a vida? Episódios vividos ou não-vividos, imaginados, não é disso que se faz a grande poesia, transfigurando-os numa arte verbal densa de sentidos? Filme da vida, a poesia. E a poesia? Filme da vida. Pode ser o clássico Billy, the Kid, a memória de actores, ou pode ser a Perspectiva Nevski, lugar de memória onde o poeta se reencontra com Akhmatova e Maiakovski, com Breton ou Juliette Gréco. A questão central nestes poemas é já a da própria escrita da poesia e as condições de possibilidade dela agora em tempo avesso, ou adverso, inverso à vida.Balada do Corsário dos Sete Mares é um ponto de chegada que, desde o início, Manuel Alegre talvez tivesse traçado no portulano da sua aventura de poeta empenhado, comprometido com ideais. Há uma toada cantabile, um não sei quê de fado – que a voz de Ricardo Ribeiro saberá colocar na clave certa – que assombra, que ensombra.Não é só um livro outonal, poemas sobre “caminhos velhos”, não é só sobre a queda da folha, real e simbólica. Se é certo que “A beleza dura um só instante”, se Eneias é uma figura encarnada de quem escreve, e se não se renuncia ao amor (a ilhas, a amigos – João Cutileiro – em gesto de homenagem a Ramos Rosa que dedicou também poema a um amigo), o que mais espanta neste livro do autor de Bairro Ocidental (2014) é que o tópico da beleza, móbil da secção VI, dedicado à mulher amada, extravasa a intenção da dedicatória. São poemas, esses, dessa secção, que meditam o amor no seu regime quotidiano e, com isso, o imortaliza: “Tu és a sentinela da minha vida”, eis um verso de legenda.Manuel Alegre, nestes seus 90 anos, merece um verso que vem de outro mestre: “Não passam, poeta, os anos sobre ti”, como escreveu Sena a Manuel Bandeira. É por isso que Águeda, mítico lugar, corresponde ao tempo agora certo: “Irei a Águeda sentar-me à beira-rio”, porque se trata de olhar, como Ulisses, o sentido da viagem. Sageza, sol e solidão, silêncio e também escuta: “O murmúrio das águas” e o tempo seguirá. O poeta, esse, ao sol do tempo, seguirá “carregado de vozes”, ele, o poeta, que um dia disse trazer uma arma cheia carregada de poemas. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.