Uma das fragilidades dos políticos populistas ou que apostam no culto da personalidade é a dificuldade acrescida em lidar com derrotas. Uma derrota real ou (apenas) percecionada não é vista apenas como parte do jogo, mas sim como uma ameaça séria à imagem do líder. E logo, por maioria de razão, como uma ameaça ao projeto político em si.A defesa da imagem de Donald Trump face ao desenrolar da atual Guerra do Irão tem dado prioridade a estratégias que vão desde as sucessivas tentativas de controlo da narrativa, até à pura reinterpretação da realidade e dos objetivos reais. Por outras palavras mais simples: afirmando que tudo o que se está a passar foi previsto e que tudo, mas mesmo tudo, faz parte de um grande e obscuro plano inicial. À medida que a realidade traz novos desenvolvimentos, o plano vai ganhando novas formas e metas, intermédias e finais. .Não têm faltado analistas ou especialistas nas redes para dar corpo a esta tese. O mais recente esforço nesse sentido veio de James Thorne, analista de mercado da gestora de fortunas canadiana Wellignton-Altus. Diz Thorne (não confundir com o republicano eleito pelo Maine para a Câmara dos Representantes em 2020) que Trump não foi apanhado de surpresa com o fecho do Estreito de Ormuz, nem com a subida de preços dos combustíveis para os cidadãos norte-americanos.“Há meio século que os estrategas do Ocidente sabem que o Estreito de Ormuz é o ponto nevrálgico em que a energia, o poder naval e a vontade política se intersetam. (…) O que é novo, nesta guerra com o Irão, é que os Estados Unidos, com Donald Trump, escolheram não ir a correr ‘resolver’ o problema”. Para quê? Para, diz Thorne, levar até ao extremo a lição de que os Europeus não devem, não podem, nem vão dar por garantido, como até agora, que os mísseis, os aviões e os navios de guerra americanos vão sempre manter as coisas a funcionar. Seja no Estreito de Ormuz, seja noutro ponto qualquer do globo. E conclui: se Trump agisse rapidamente e em força no estreito, as semipotências europeias “iriam suspirar de alívio e depressa voltariam ao business as usual”.Esta análise de Thorne — e outras semelhantes que têm surgido após anteriores declarações erráticas, contraditórias ou insultuosas do presidente dos EUA — assenta numa “certeza” que está longe de o ser: a de que a iniciativa, nesta guerra, ainda pertence aos americanos. Não está claro que assim seja. As forças americanos estão, neste momento, mais a responder à estratégia do Irão do que a determinar o que se passa no terreno.."As forças americanos estão, neste momento, mais a responder à estratégia do Irão do que a determinar o que se passa no terreno. É ainda menos certo que a inação de Trump na reabertura do estreito seja uma ‘escolha’ sua.”.Segundo. É ainda menos certo que a inação de Trump no que toca a abrir o estreito seja uma “escolha” sua. A reiterada retórica bélica do presidente americano apenas tem vindo a telegrafar desespero aos iranianos. E, no caso de ainda reter alguma capacidade de escolha, é muito mais provável que tenha a cabeça nas bolsas, no preço da gasolina e diesel para os eleitores americanos (que votam nas midterms em novembro) ou no movimento de deserção que começamos a ver nos seus influenciadores MAGA.Administrar a derradeira “lição” aos europeus sobre “andar à boleia” da segurança americana deve estar longe nessa lista de prioridades. Se é que alguma vez esteve desde que as bombas começaram a cair em Teerão, em 28 de fevereiro.? Post scriptum: Tal como se esperava, a conferência de imprensa de Trump na tarde desta segunda-feira foi uma arenga incoerente, oscilando entre o autoelogio exagerado e desvios para informação irrelevante para o tema em apreço. Pelo meio ameaças aos meios que noticiaram que os EUA andavam à procura do segundo ocupante de um F-15 abatido. Tudo “normal”.