Malefícios da democracia

João Caupers

Antigo presidente do Tribunal Constitucional e subscritor do 'Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça'

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Hoje venho, sem querer faltar ao respeito ao senhor Churchill, falar-vos dos malefícios da democracia.

Como saberão, ou, pelo menos desconfiam, a democracia foi uma ideia original dos gregos. Daí que o seu nome seja grego. Tivesse ela surgido do outro lado do mar Egeu, bem poderia ter ficado conhecida por um nome turco.

Os gregos habitavam inúmeras ilhas, pelo que podemos pensar que a democracia tem algo de insular. Claro que as Filipinas também são compostas por muitas ilhas, ainda mais do que Grécia. Mas vá-se lá saber porquê, os filipinos não inventaram a democracia. Poderiam ter inventado, ao menos, a dinastia filipina. Mas nem isso. Estranhamente, foram os espanhóis, nossos vizinhos, que a criaram, tal como a paella, o Dom Quixote, o Real Madrid e a gripe espanhola.

A gripe espanhola, é certo, não se sabe bem se surgiu em Espanha, conhecendo-se várias teorias a este respeito. Há quem diga que o vírus escolheu a Espanha porque quis escapar à Primeira Guerra Mundial, que então assolava em especial a Europa, e a Espanha era um país neutro, que não participou nesta. Esta teoria não merece credibilidade, até porque o vírus também fez vítimas em Espanha, desde logo o próprio Rei Afonso XIII, que só não morreu porque se salvou. O que é extraordinário, porque naquela época – 1914/1918 – ainda não tinha sido descoberta a penincilina, o que apenas viria a suceder em 1928.

Deixo-vos a imaginar o horror de um mundo sem penincilina.

Voltando ao nosso tema de hoje.

A democracia desenvolveu-se, parece, em comunidades pequenas, como Atenas. A Suíça é um país pequeno, democrático há séculos (e não tem ilhas, nem sequer, mar!). A Rússia é um país enorme, o maior do planeta, e nunca teve democracia. A Suíça só inventou coisas pequeninas, como o chocolate e os relógios de pulso absurdamente caros. A Rússia só inventou coisas enormes como o Kremlin, os gulags, a Sinfonia n.º 7 op. 60 “Leningrado”, de Shostakovich, e o Exército Vermelho.

Até parece que a dimensão reduzida do país estaria ligada ao tamanho das invenções e ao sucesso democrático. Mas não é bem assim. Os Estados Unidos da América, por exemplo, que são também enormes e ainda querem ser maiores, inventaram coisas grandes, como os porta-aviões e o ego de Trump. Mas também inventaram coisas minúsculas, como o post-it e o agrafo. E também, apesar do tamanho, em tempos cada vez mais remotos foram uma democracia.

Também Portugal, que é um país pequeno – embora maior do que a Suíça – e tem uma democracia de meia-idade (e ilhas!), inventou coisas grandes, a maior de todas, um Império Colonial. Mas também inventou coisas pequenas, como o microfone de bola, o transistor de papel e os joaquinzinhos.

Pensando melhor, talvez não seja possível estabelecer uma relação entre a democracia e a dimensão dos países, bem como das respetivas invenções. Parecia uma ideia a explorar. Se calhar, não.

Uma coisa, porém, é certa e incontroversa: a democracia tem defeitos.

Muito obrigado pela vossa atenção.

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