Em dezembro de 2024, a PJ desmantelou um laboratório de droga na Operação Pacoba e apreendeu um atrelado com 62 bidões de solventes usados na produção de droga. O procurador do Ministério Público ordenou a destruição do material, ordem que nunca foi cumprida.O atrelado começou por ficar guardado em instalações da Marinha. Quando a Marinha pediu a sua retirada, em agosto de 2025, por não ter condições de segurança para o manter, a PJ, com aprovação de Luís Neves, então diretor nacional, resolveu entregá-lo à Construbarcelos. Foi para lá em setembro de 2025, sem custos, e ficou ao ar livre, sem condições de segurança, até a PJ lá voltar agora para o recuperar.Este caso exigia uma resposta rápida: quem decidiu, com que base legal, por que é que uma ordem do próprio procurador ficou por cumprir. Tivemos, em vez disso, uma conferência de imprensa surreal. Mais de uma hora a chamar-lhe “um ato de extraordinária gestão” e a justificar o incumprimento com falta de verba.O argumento não convence. Luís Neves gosta de recordar que triplicou o orçamento da PJ enquanto foi diretor nacional. Ao mesmo tempo, entre 2019 e 2025, a PJ celebrou 17 contratos com a Construbarcelos. Nove foram por contratação excluída, o regime pensado precisamente para situações de exigência especial de segurança do Estado e valeram, só esses, 1,45 milhões de euros. Esse regime de exceção foi usado repetidamente para obras de rotina, mas não apareceu quando havia um problema real de segurança do Estado para resolver: a destruição de material apreendido numa investigação de tráfico de droga, por cerca de 150 mil euros. Não se triplica um orçamento e depois se alega que não há dinheiro para uma situação deste tipo.Fica a pergunta: por que achou aceitável, enquanto diretor da PJ, resolver um problema logístico entregando material perigoso a uma empresa privada, sem contrapartida e sem condições para o guardar?A questão é de fundo: falta de responsabilidade, de zelo, de cumprimento dos procedimentos e das leis que o próprio cargo lhe exigia. E tudo isso foi contornado sem se perceber porquê, escondido atrás de um argumento de falta de dinheiro que os factos acima desmontam sozinhos.Luís Neves ficou três semanas em silêncio e, quando falou, continuou a deixar muitas dúvidas por esclarecer. Mas confirmou o que já se suspeitava: não tem adequação ao cargo que ocupa.E estamos na época do ano com mais risco de incêndios. É a Proteção Civil, tutelada por este ministro, os meios no terreno, a prevenção, a coordenação com as autarquias, que deviam ocupar as manhãs de Luís Neves. Em vez disso, passam-se dias a preparar conferências de imprensa e a deixar correr tinta sobre um caso que ele próprio criou.Portugal precisa de um Governo que reconheça que há decisões que desqualificam quem as tomou. E precisa de ministros que aceitem o escrutínio como parte do trabalho, não como um estorvo. Enquanto isso não acontecer, o país tem um ministro da Administração Interna a decidir sobre a nossa segurança sem ter a autoridade, a confiança ou o zelo que o cargo exige. E quando um ministro perde a autoridade necessária para liderar, o problema deixa de ser dele. Passa a ser do país.