Luís Neves é mais do que uma escolha técnica

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A escolha de Luís Neves para a Administração Interna é, antes de mais, um gesto de inteligência política por parte do primeiro-ministro Luís Montenegro. Não apenas porque o antigo diretor Nacional da Polícia Judiciária (PJ) conhece como poucos os dossiers mais sensíveis do Estado, mas porque a sua nomeação rompe com uma tendência seguida pelo Governo nos últimos dois anos: a tentação de seguir, quase que por osmose, a retórica securitária que tem marcado o discurso do Chega, sobretudo em matéria de imigração. A entrada de Luís Neves no Governo é, por isso, mais do que uma opção técnica. Sinaliza uma mudança de rumo e, ainda, um foco redobrado na eficácia e na capacidade de concretização.

A este respeito, convém recordar um momento que Luís Neves protagonizou, na conferência dos 160 anos do Diário de Notícias, em 2025. Na altura, o então diretor Nacional da PJ defendeu, com a serenidade de quem fala com base em factos, que não existe uma relação de causa e efeito entre o aumento da imigração e a subida da criminalidade. A intervenção do líder da PJ na conferência do DN foi ovacionada e tornou-se viral, porque contrariava, de forma frontal, a narrativa que estava a ganhar espaço no debate público. Hoje, essa mesma postura está a ser chamada a ocupar o centro da política de segurança interna.

Luís Neves, O recém-nomeado ministro da Administração Interna.
Luís Neves, O recém-nomeado ministro da Administração Interna.Reinaldo Rodrigues

De resto, Luís Neves nunca foi político em sentido formal, mas sempre demonstrou qualidades que são próprias de um político competente, como a clareza, a sobriedade e uma notável aptidão para construir pontes entre pessoas e entidades que nem sempre se entendem à primeira. É essa capacidade que será posta à prova no maior desafio que o aguarda: a reforma da Proteção Civil. Não basta rever leis; é preciso garantir que a máquina funciona no terreno e que entidades como os bombeiros, as forças de segurança, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, a Agência Portuguesa do Ambiente e as Forças Armadas falam a mesma língua e atuam com o mesmo propósito.

A isto somam-se tarefas tão críticas quanto gerir o combate aos fogos florestais e substituir o polémico SIRESP - um sistema de comunicações que, como se voltou a verificar nas recentes tempestades , parece funcionar apenas quando não faz falta.

O que se pede a Luís Neves é, no fundo, que faça na Administração Interna o que fez na Polícia Judiciária ao longo de duas décadas. Construir estratégias coerentes, unir equipas que não nasceram para cooperar e transmitir à opinião pública a confiança de que o Estado está à altura das crises que enfrenta. Num ministério onde a perceção pública pesa tanto quanto a eficácia operacional, essa capacidade de comunicar serenidade e rigor pode revelar-se tão decisiva quanto qualquer reforma estrutural que se faça.

"O que se pede a Luís Neves é que faça na Administração Interna o que fez na PJ ao longo de duas décadas. Construir estratégias coerentes, unir equipas e transmitir à opinião pública a confiança de que o Estado está à altura das crises que enfrenta.”

O único problema da escolha, se quisermos ser exigentes, reside no facto de Luís Neves chegar a ministro da Administração Interna com expectativas excecionalmente elevadas, o que poderá revelar-se contraproducente. O futuro dirá se Luís Neves estará à altura das expectativas, numa pasta que, nos últimos anos, tem sido particularmente desafiante.

P.S. - O DN atingiu no mês passado novos recordes de audiência no digital, com um total de 3,7 milhões de leitores e 25 milhões de visualizações (pageviews) em janeiro. Estes valores representam aumentos de 120% e 370%, respetivamente, face a janeiro de 2025. São números que nos recordam da responsabilidade de procurarmos servir cada vez melhor os nossos leitores, a quem agradecemos a preferência e a confiança que muito nos honram.

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