Um olhar sobre o livro História Geral de Macau

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Quando estive em Portugal pela primeira vez em 1988, como bolseira de investigação do ICALP, um senhor perguntou-me: "Sabe porque o imperador chinês doou Macau a nós, portugueses? Porque ajudámos os chineses a expulsar os piratas." "O quê? Vivi 37 anos na China e nunca ouvi falar sobre essa doação. Quem é que disse isso?" "Está escrito nos livros escolares."

“Mas não foi nada disso”, tentei explicar ao senhor. Vim para Portugal diretamente de Macau, onde trabalhara no Instituto Cultural de Macau (ICM) e o dr. Jorge Morbey, o então presidente do ICM, entregou-me a tarefa de traduzir para português, História de Macau, para uma leitura interna. O livro, da autoria de Huang Hongzhao, foi publicado em 1987 por The Commercial Pres (Hong Kong). Naquela altura não havia computador, traduzi com uma máquina datilográfica e fiquei a saber que alguns portugueses alegaram que precisavam de um terreno para secar a mercadoria molhada e com subornos a um mandarim local obtiveram tal terreno e pouco a pouco fixaram residência, pagando rendas...

Depois de ter passado uns 20 anos em Portugal desde 1991, tendo visto tantos estudiosos portugueses e chineses a estudar e a escrever sobre o relacionamento luso-chinês através de Macau, julgava que os locais, sobretudo as novas gerações, já não acreditavam na história de “doação” e “piratas”. Contudo, na década de 2010, ao comentar um texto sobre Macau numa aula de tradução em Lisboa destinada a universitários chineses de mobilidade, lembrei-me dessa “doação” e contei-a como piada aos alunos. Mas, para grande espanto meu, eles disseram que um colaborador do Curso, jovem, tinham-lhes contado a mesma história. E agora, há poucos dias, li por acaso uma sebenta para o 4º ano de um colégio, que relata: “Este pequeno território, situado no sul da China, foi nos doado pelos chineses como recompensa ... nossos navegadores na luta contra os piratas.” Meu Deus! Quando é que os portugueses podem conhecer alguma opinião chinesa sobre essa questão de Macau?

Finalmente, foi lançado pela Caminho no dia 8 de abril, no CCCM, a versão portuguesa de História Geral de Macau, escrito pelo Prof. Huang Qichen em Cantão e traduzido pela Prof.ª Hu Jing em Tianjin, com revisão do Prof. Carlos Ascenso André em Coimbra. A obra chinesa foi nomeada em 2021 para a 5ª edição do Prémio do Governo Chinês para Publicações e ganhou em 2023 a 8ª edição do Prémio de Publicação de Excelência da China.

Soube esse projeto de tradução há quase dois anos, através do dr. Zeferino, diretor da Caminho, pois Hu Jing falou com ele sobre mim. Realmente, sendo uma aluna de mobilidade em Lisboa, ela fez unidades curriculares de tradução chinês/português e português/chinês comigo. Conforme ela, levou cinco anos para acabar a tradução do livro, com 600 e tal páginas.

O livro conta a história de Macau desde antiguidade remota até 2019, em particular desde a Dinastia Ming até aos dias de hoje. Cita um grande número de documentos históricos da China e do estrangeiro, com todos os argumentos e provas bem fundamentados, sem parcialidade nem imposição de ideias.

Ao ler que os documentos da Torre do Tumbo foram também citados, lembrei-me de que em 1988, numa visita ao Dr. João Bigotte Chorão, fomos, eu e o meu marido, convidados pela sua mulher Dr.ª Maria José Mexia para visitar a Torre do Tombo em que trabalhava, pois havia lá muitas caixas de documentos em chinês, que ninguém sabia o seu conteúdo. Fomos então à Torre nas suas instalações antigas e das duas caixas que nos mostraram, descobrimos que eram documentos antigos do governo local de Macau, entre os quais, um registava as contas de compras e despesas. Após a visita, escrevi uma carta ao dr. Morbey e mais tarde, ele disse que ia mandar um técnico fazer microfilmagem aos documentos. Voltei a ouvir falar sobre esse acervo documental só em 2016-2017, que, denominado “Chapas Cívicas”, passou a ser classificado pela UNESCO como registo de Memória do Mundo e a ser exposto em Pequim, em 2019, por ocasião dos 40 anos das relações diplomáticas entre a República Portuguesa e a República Popular da China.

Durante o lançamento do livro, com apresentação do Prof. Jorge Santos Alvez, um ouvinte chinês mandou logo uma mensagem WeChat ao seu grupo de amigos: “Tanto a China como Portugal possuem um rico registo histórico sobre Macau. Para Portugal, é também preciso conhecer melhor a história de Macau numa perspetiva chinesa, sobretudo o seu desenvolvimento após o seu regresso à China. Nesse sentido, a publicação da versão portuguesa de História Geral de Macau reveste-se de grande valor.”       

Parabéns à editora, ao autor, à tradutora e ao revisor, por esta grande contribuição que fizeram para promover a compreensão mútua entre os chineses e os portugueses. 

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