A Páscoa é, para muitos, sinónimo de amêndoas e folares. Mas para uma casta especial de pais é a época oficial da “Via Sacra” do desporto de formação. Uma peregrinação que começa com o despertador a tocar a horas que fariam um padeiro chorar, estendendo-se, em Lisboa, por campos sintéticos, pavilhões frios (dentro de alguns deles chove como na rua...), além dos balneários que, muitas vezes, desafiam as leis da higiene. É a maratona de levar os miúdos para os torneios.Nas bancadas, o cenário é digno de um estudo antropológico. Cada pai, com o seu café na mão, olha para o seu rebento e, com uma fé inabalável, vê ali a reencarnação de Cristiano Ronaldo ou Luís Figo. Os momentos em família são garantidos, com fotos para o Instagram e sandes de panado.A ironia é que a bola é, muitas vezes, um pretexto para um fervor que ultrapassa o razoável. O elefante na sala é o comportamento de alguns pais que transformam o árbitro (um jovem de 16 anos) no inimigo público número um. Mas essa é outra questão...E quando a época da Páscoa termina? Os torneios acabam, as luzes apagam-se e o desporto de formação em Lisboa parece entrar em hibernação. A cidade enfrenta, efetivamente, uma barreira da escassez e conservação nos seus equipamentos - reforço esta ideia: Lisboa enfrenta desafios críticos na gestão do seu parque desportivo!Historicamente, a taxa de execução de cartas desportivas anteriores fixou-se nuns meros 25%, acumulando carências que agora se sentem. Um diagnóstico recente a 70 instalações municipais sublinhou a necessidade urgente de manutenção, com o risco de encerramento de espaços. O lema poderia ser este: “Se não chove lá dentro, não precisa de obras.”E o orçamento? Em 2025, a Câmara Municipal de Lisboa destinou 8 milhões de euros para a área desportiva. Para 2026 a verba passou para 4,2 milhões. Quase metade. Eis a prova de que o investimento direto no desporto em Lisboa representa muito pouco do orçamento total. Uma fatia que, ironicamente, é quase tão pequena quanto a probabilidade de o nosso filho ser o próximo CR7 sem um espaço decente para treinar na modalidade que escolheu.A cereja no topo do bolo, digamos assim, é que os pais cobrem entre 60 a 80% do custo direto da prática desportiva. Ou seja, enquanto a Câmara Municipal de Lisboa tenta focar-se na (muito lenta) execução das infraestruturas, as famílias assumem o peso principal da despesa. Uma espécie de “faça você mesmo” do desporto de formação.A questão é clara: se queremos que os nossos filhos cresçam saudáveis, convém dar-lhes condições nos restantes dias do ano. Caso contrário, o máximo que conseguiremos é um campeão de sofá em levantamento de comando da PlayStation, com uma medalha de ouro em “horas de ecrã”. Enfim... A carolice de pais e a dedicação de dirigentes e treinadores de muitas coletividades e clubes permitiram que, nas últimas semanas, muitas crianças vivessem sonhos.O desporto é para todos os dias e não apenas para épocas festivas ou feriados. Afinal, a vida é uma maratona, não um sprint de Páscoa.