Leituras a banhos

Diogo Noivo

Politólogo

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Ainda sobra Verão. Para o caso de ainda sobrar espaço na mala de viagem, aqui ficam sugestões de leitura para os dias livres de obrigações profissionais e arrelias quotidianas. São páginas feitas de passado e presente, com histórias de além e aquém-fronteiras, umas mais amenas do que outras, mas todas merecedoras de várias horas.

Bem-vindos à Venezuela

Em pouco mais de 130 páginas, Nancy Gomes sintetiza a história, política, sociedade, cultura e relações externas da Venezuela. A análise académica funde-se com o testemunho da luso-descendente nascida naquele país da América Latina, perspectivas em diálogo que dão um interesse acrescido ao livro.

Nestes tempos em que se discute a erosão das democracias, é pena que não se explore em detalhe o colapso da democracia venezuelana, que, de certo modo, antecipou as dinâmicas que vemos hoje em vários países ocidentais. Ainda assim, Venezuela: Um país em suspenso, editado pela Penguin, é uma introdução bem conseguida a um país importante que tem estado na agenda política e mediática.

Sair do labirinto internacional

As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente (re)acenderam debates sobre o Direito Internacional, em particular sobre os direitos e deveres das partes beligerantes. Francisco Pereira Coutinho, que participa nessas discussões na comunicação social portuguesa, escreveu um guia simples, rigoroso e interessante para sair do labirinto argumentativo. Em 46 perguntas e respostas, Guerra, Mentiras e Direito Internacional, publicado pela Zigurate, esclarece o essencial sem fugir à complexidade, com um olhar prático que torna o livro útil, até para quem não se sente à vontade neste campo.

A história de um gigante

Em 2011, o historiador Juan Francisco Fuentes publicou uma biografia de Adolfo Suárez, o primeiro presidente de governo de Espanha em democracia e um dos mais notáveis políticos europeus dos últimos 50 anos. O livro, que muito contribuiu para melhor compreender o itinerário político de Suárez, foi agora revisto e aumentado. O resultado, publicado pela Taurus com o título Adolfo Suárez: La opción más difícil, é uma obra muitíssimo bem escrita e pensada, essencial para entender a colossal importância do biografado, mas também os dilemas da construção da democracia em Espanha, uma etapa da história recente que, infelizmente, é hoje contestada pelos extremos à direita e, sobretudo, à esquerda.

Lobo Antunes visto de Espanha

O escritor espanhol Rafael Maldonado conseguiu, num breve ensaio, abarcar a vida e obra de António Lobo Antunes, facto que, em si, tem bastante mérito. São páginas de clara homenagem, embora Maldonado nunca permita que a admiração indisfarçável que tem por Lobo Antunes o ofusque. António Lobo Antunes: La epopeya y la lírica, acaba de ser publicado pela Confluencias Editorial. Deveriam trazê-lo para este lado da fronteira.

O passado não foi lá atrás

Os 50 anos de democracia em Portugal celebraram-se também com livros, entre eles Em Torno de Abril: 25 anos que mudaram Portugal (1961-1986), do historiador José Miguel Sardica, com a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Sardica leva a cabo um magnífico equilíbrio entre detalhe e resumo para explicar as décadas que mudaram o país. Com isso, obteve um relato sério, porque bem fundamentado, sobre quem fomos, o que somos e como nos relacionamos com o passado recente.

O necessário incómodo de desenterrar mortos

Com acesso a fontes primárias inéditas, Maria José Oliveira conseguiu com Casa dos Mortos. A PIDE/DGS em Moçambique 1964-1974, da Tinta-da-China, resgatar um pequeno mas importante pedaço da nossa história contemporânea. Não é uma história bonita. Mas é uma história necessária, contada com a mestria que nasce da dupla condição de jornalista e historiadora da autora.

Um país em forma de assim

A colectânea de textos publicados por Nuno Gonçalo Poças no Observador mereceu o título Águas de Bacalhau. Lamentavelmente, um título certeiro. Estas crónicas publicadas entre 2015 e 2025 retratam um país estagnado, que, por acção ou omissão, não sai da cepa torta. O autor, um dos mais inteligentes e originais cronistas da vida política nacional, luta contra as taras e fracassos pátrios, mas também contra a canseira que tudo isto lhe provoca – o que mostra que (ainda) não desistiu. Publicado pela D. Quixote.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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