Lagarde e o “ano de todos os perigos” que aí vem

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a: 

A saída prematura de Christine Lagarde da presidência do Banco Central Europeu (BCE), conhecida esta quinta-feira, é um acontecimento que deve ser lido e interpretado num enquadramento que vai muito além das circunstâncias pessoais da advogada e economista francesa que lidera a instituição desde 2019, ano em que sucedeu a Mario Draghi. Lagarde deixará o cargo a 7 de fevereiro de 2027, cerca de nove meses antes do final do mandato.

Em declarações à imprensa, Lagarde justificou a decisão com a necessidade de recuperar liberdade para se pronunciar sobre assuntos que estão para além da política monetária. “Quero ter liberdade de palavra, liberdade de expressão e liberdade para me envolver em questões que não sejam de política monetária”, afirmou. E acrescentou que já não se sente confortável com a neutralidade exigida pelas funções que desempenha. “Não creio que me possa sentir confortável nessa neutralidade neste momento. Interesso-me pela verdade. E vejo a verdade ser muitas vezes prejudicada, contrariada por deturpações”, disse.

As palavras da ainda presidente do BCE permitem várias interpretações. Uma delas é a de que Lagarde pretende intervir mais diretamente no debate político francês, numa altura particularmente delicada para o seu país. A própria tem afastado a possibilidade de se candidatar à Presidência da República, mas já manifestou a intenção de defender os valores pró-europeus em França da forma que considerar mais eficaz.

"Lagarde pretende intervir mais diretamente no debate político francês, numa altura particularmente delicada para o seu país."
"Lagarde pretende intervir mais diretamente no debate político francês, numa altura particularmente delicada para o seu país."Felix Schmitt for ECB

E não será difícil perceber porquê. As eleições presidenciais francesas estão marcadas para 18 de abril de 2027, com uma segunda volta a 2 de maio, caso nenhum candidato obtenha maioria absoluta. Emmanuel Macron, que cumpre o seu segundo mandato consecutivo, não poderá voltar a candidatar-se e deixará o Eliseu em maio.

Neste momento, Marine Le Pen parte claramente à frente. As sondagens dão à candidata do Reagrupamento Nacional uma vantagem significativa na primeira volta e alguns estudos recentes colocam Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, na segunda posição, abrindo a possibilidade de uma inédita segunda volta entre a direita nacionalista e a esquerda radical. É ainda cedo para saber se esse cenário se concretizará. Mas a simples possibilidade de o centro político francês ficar afastado da segunda volta já diz muito sobre a dimensão da transformação política em curso.

Há, porém, uma segunda leitura para o momento escolhido por Lagarde. A sua saída antecipada permitirá que o processo de sucessão no BCE decorra enquanto Macron ainda ocupa o Eliseu. A escolha não pertence, naturalmente, ao presidente francês. O presidente do BCE é nomeado pelo Conselho Europeu, através de maioria qualificada reforçada, depois de cumprido o processo previsto nos tratados europeus. Mas a França continuará a ter um peso importante na negociação política que antecede qualquer decisão desta natureza.

"A saída antecipada de Lagarde permitirá que o processo de sucessão no BCE decorra enquanto Macron ainda ocupa o Eliseu, antes de uma eleição presidencial que será disputada por Le Pen e Mélenchon.”

É, por isso, plausível interpretar a antecipação da sucessão também como uma forma de retirar uma das decisões institucionais mais importantes da Europa da incerteza política que poderá instalar-se depois das presidenciais francesas. A Reuters assinalou precisamente que o calendário permitirá a Macron participar nas negociações para a sucessão de Lagarde antes das eleições, num momento em que a ascensão de forças políticas críticas de aspetos da integração europeia, em França e na Alemanha, acrescenta uma dimensão política especialmente sensível à escolha do próximo presidente do BCE.

Tudo isto acontece, além do mais, quando a França atravessa uma situação económica e financeira que merece ser acompanhada com atenção, com um disparo nos juros da dívida e protestos violentos nas ruas. 2027 poderá, por isso, transformar-se no “ano de todos os perigos” para França. E isto interessa também a Portugal, um país que deve muito do seu desenvolvimento e prosperidade à pertença à União Europeia e à moeda única.