José Saramago ou uma literatura que incomoda (a decapitação dos professores e alunos)

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Como afirmei já no artigo do Diário de Notícias de 31 de Março, e como tive oportunidade de frisar num comentário à SIC, a questão fundamental que a polémica sobre Saramago no 12.º ano deveria levantar tem que ver com a forma como se pensa a Educação - e o ensino do Português, especificamente - neste país. O quadro geral de ataque que, nos EUA e também na Europa, se tem vindo a fazer a tudo quanto seja memória cultural, consolidação de políticas culturais que dotem os cidadãos de uma formação cívica digna desse nome, isso não pode desvincular-se das própria políticas do trabalho que estão em curso.

O trumpismo, bem como a ascensão do neo-nazismo e do neo-fascismo na Europa e no mundo, a tentação totalitária, os tiques ditatoriais de governos ditos democráticos essa forma insidiosa de pôr e dispor, de mandar e desmandar que, cada vez mais, caracteriza a acção dos governantes , nada disto pode ser ignorado. Se Sousa Lara, no início da década de 1990, a pretexto do romance de Saramago O Evangelho Segundo Jesus Cristo condicionou, em muito, o reconhecimento de José Saramago no que, anos depois, ser-lhe-ia inevitável o Nobel da Literatura , certo é que a convivência deste mestre da Língua Portuguesa com os poderes políticos nunca foi pacífica. É justamente esse o papel da literatura e, nos casos raros dos autores que a vivem e a ela se entregam de corpo e alma, jamais uma literatura bem-comportada terá qualquer sentido.

Mas o incómodo que José Saramago possa causar aos poderes políticos, seja porque os seus romances são sátiras do obscurantismo português (a caricatura de D. João V em Memorial do Convento e o papel censório da Igreja e a sua responsabilidade histórica naquilo que somos como povo), seja porque são sondagens profundas e exigentes a épocas culturais e políticas, onde o combate entre a arte e a política é o pano de fundo desta ou daquela intriga (O Ano da Morte de Ricardo Reis e o mundo de ficções de Pessoa vs. as vésperas da Guerra Civil de Espanha, a asfixia do fascismo português, o terror do nazismo na Alemanha), tudo isso que é como em Ensaio Sobre a Cegueira uma extensa alegoria do mundo humano, onde a única lógica que há é a da dialéctica luta entre exploradores e explorados, tudo isso é ainda mais incómodo porque gizado e sublimado em romances onde o trabalho com a Língua Portuguesa atinge um nível estético extraordinário.

E é essa a questão que, a meu ver, teremos de debater, porque José Saramago, como tantos outros escritores maiores da nossa Literatura do século XX, é um autor difícil, um romancista que exige que cada professor tenha uma formação muito para além das licenciaturas e da formação vocacional em Ensino científica feita rigor e consciência. Rigor quanto aos modos como um romance de Saramago pode e deve lecionar-se. Consciência quanto ao facto de, no acto de dar a ler Saramago, um professor tem de ter um cabedal de leituras de natureza ensaística sobre o estilo, a ideologia, as fontes, enfim, a própria historicidade literária que, valha a verdade, é cada vez mais raro ter-se. E é este o busílis da questão: a formação dos professores, em geral, e a dos de Português, em particular. Ou, se se quiser: o nó górdio da Educação em Portugal está na concepção meramente instrumental, funcionalista da profissão docente.

O professor de Português, perante o desafio de leccionar José Saramago, bem como qualquer outro conteúdo de um currículo exigente e que atravessa o trovadorismo, passa pelo teatro de Gil Vicente, não esquece a crónica de Fernão Lopes, coloca Camões como eixo do cânone, a par de Pessoa e chega a autores como Antero e Cesário, e, com esta nova revisão curricular, convoca Pascoaes, Natália Correia, Fiama, Luís Filipe Castro Mendes, entre outros tantos poetas do século XX; um professor, dizia, perante a justa exigência (em teoria) de um tal currículo a leccionar-se, de que precisa? Além de uma formação em que haja formadores com sólida bagagem de ensaística especializada, precisa de tempo. Tempo para ler ensaios de Maria Alzira Seixo, de Óscar Lopes, de Carlos Reis, de Helena Buescu, de Manuel Gusmão, de David Mourão-Ferreira, de António Ramos Rosa, de Gastão Cruz, entre tantos outros, sem os quais não é possível dar a ler, com rigor e sedução, com poder de comunicação e com saber, seja que obra ou autor for.

O professor necessita daquilo que lhe roubaram as sucessivas reformas do Ensino: tempo para, além de ler a bibliografia activa deste ou daquele autor, ler a bibliografia passiva. Tempo e liberdade. Desburocratizar o Ensino e apostar numa formação de professores verdadeiramente formativa - como ler e porquê, como dar a ler Saramago, ou Pessoa, Camões ou Fiama, Natália Correia, Luís Filipe Castro Mendes, enfim, como ensinar a Literatura.

Ora, o ataque a uma Educação onde tempo e saber, liberdade e pensamento são as condições básicas - a par de ordenados robustos, de modo a que os professores acedessem aos bens culturais, primacialmente o livro! -, é isso que está igualmente em causa quando esta revisão curricular é deixada à consulta pública

Quando se trata de reformar ou rever questões da medicina, são essas alterações postas à consideração geral? O mesmo ministério que coloca em discussão pública a facultatividade de se leccionar, ou não, Saramago é o mesmo ministério que não consulta professores do Secundário e pede “avaliações técnicas” a quem, muito provavelmente, nunca leccionou no Secundário - e com os alunos actuais, brutalizados pelo digital, órfãos de toda e qualquer consciência cívica e cultural.

Aqui está, quanto a mim, a questão final e que Saramago e a sua obra nos coloca: quem somos?

É que Fernando Alexandre pode até argumentar que há muitos outros escritores além de Saramago. Pode até servir-se da manhosa estratégia de pôr à consideração um outro autor Mário de Carvalho , que é, também ele, de esquerda. Mas a questão mantém-se: José Saramago é património que a escola deve leccionar porque, além do Nobel, a sua arte de linguagem (“a Literatura é linguagem carregada de sentido”, disse-o Ezra Pound, que não era de esquerda) e os universos de ficção que nos propõe fazem isso que só a grande literatura faz: inquirir sobre quem somos.

Os romances de Saramago - como já os de Vergílio Ferreira, e de que Aparição era um dos mais belos momentos da disciplina de Português não podem ser facultativos por uma razão simples: assim como Camões condena as elites pela sua ignorância e vampirismo (estâncias 78-87, C. VII), assim como Pessoa condena o absurdo do Nada em muitos dos seus poemas ortónimos e heterónimos, Saramago é um desses raríssimos escritores onde a memória, as artes, a condição tanto mais portuguesa, quanto humana, é matéria de reflexão num tempo em que a decapitação da linguagem, a insensibilidade e a rudeza bestial fazem caminho.

O ministério não pode mandar e desmandar os professores deviam ter sido ouvidos. E os alunos, esses, analfabrutos por duas décadas de estupidez oficializada em exames que nada aferem de leitura e escrita, também os alunos merecem ler Saramago e aprender quanto a literatura é mundo carregado de sentido.

A escola precisa de memória, não de diluição cultural. Precisa de desburocratizar, precisa urgentemente do professor como agente multiplicador de cultura. Que quer este Governo: a IA nas turmas e, no limite, dispensar os professores, destruir a escola, preparar os filhos dos pobres para só saberem carregar em teclas, mas jamais ler e escrever, imaginar e questionar. Saramago sabia bem desse perigo por isso fez literatura incómoda.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.

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