Depois de se separar do marido, alcoólico e abusador, quando o filho tinha 7 meses, a mãe de James Talarico voltou a casar-se. Criado pelo padrasto, o agora senador eleito pelo Texas acabou por ser adotado por este e passou a usar o seu apelido.
Quem também foi criado pelo padrasto, na Indonésia, foi Barack Obama, depois de o pai, queniano, ter deixado a família para regressar a África quando o filho tinha 2 anos.
Mas se a história pessoal dos dois homens tem pontos de contacto, é a sua forma de discursar que vale, hoje, a Talarico comparações com o antigo presidente.
“O ódio não consegue ensinar uma criança a ler. O ódio não consegue construir um futuro. Mas o que o ódio não pode fazer, o amor pode. O amor pode transformar um estudante num académico. O amor pode transformar um closet num quarto de bebé. O amor pode transformar um inimigo num amigo. O amor pode transformar uma campanha num movimento. O amor pode curar o que está estragado na América”, exclamou Talarico no discurso de vitória depois das eleições intercalares de terça-feira.
Num estado vermelho (desde Jimmy Carter, em 1976, que nenhum candidato presidencial democrata vence no Texas), Talarico é o primeiro democrata eleito para o Senado em 38 anos. Com 37, o antigo professor de Inglês não tem memória desse tempo. Mas foi uma das figuras da onda azul que na terça-feira varreu o Texas – e a América.
Os mais atentos já teriam ouvido falar em Talarico, candidato a um dos lugares mais disputados para o Senado. Mas podem ter ficado surpreendidos com a sua oratória, cuja cadência parece saída de um sermão da Igreja Presbiteriana que frequenta. Sem esconder a sua fé, Talarico, que foi seminarista, diz guiar-se pelos mandamentos “ama a Deus e ama o teu vizinho”, estando a fazer Mestrado em Divindade.
Enquanto muitos apostam em Talarico para reaproximar a esquerda americana da fé, há quem não resista a compará-lo a Obama – pela energia, juventude, retórica poderosa e até pelo passado de trabalho comunitário. O antigo presidente esteve em campanha em Austin ao lado do então candidato a senador. Pouco depois, no podcast The Jamie Kern Lima Show, Talarico disse-se lisonjeado com as comparações, mas brincou: “Acho que só revelam o desejo de ver alguém com menos de 80 anos candidatar-se.”
Longe de ser o primeiro democrata comparado ao primeiro presidente negro dos EUA, Talarico talvez tenha aprendido com Kamala Harris que ser “o novo Obama” não garante votos a ninguém. E que se quer ser parte do futuro do Partido Democrata – uma futura candidatura presidencial? – o melhor é ser ele próprio.