Já não tínhamos um plano para isto?

Mariana Leitão

Presidente da Iniciativa Liberal

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17 de junho de 2017. Incêndios de Pedrógão Grande. 66 mortos. Foram feitos relatórios, comissões, planos de gestão florestal.

15 de outubro de 2017. Mais 50 mortos, desta vez espalhados por Coimbra, Viseu e Leiria, numa noite. Mais relatórios. Mais planos.

Em 2022, a pior seca em décadas. Novo plano de resiliência hídrica.

28 de janeiro de 2026. Leiria acorda sem luz, sem água, sem comunicações. O vento soprou a mais de 150 quilómetros por hora. Duas semanas depois, 3000 pessoas são retiradas das margens do Mondego em Coimbra porque os diques ameaçam ceder.

Portugal não tem falta de planos. Tem falta de quem responda quando não são cumpridos.

Esta semana, a Presidência da República publicou um relatório de 96 páginas sobre os territórios afetados pela Kristin. Documenta, sem o dizer explicitamente, que a maior parte do que falhou não foi surpresa para ninguém e conclui, como primeira lição estratégica, que é preciso passar da reação à prevenção. Algo que, infelizmente, também já sabemos há muito.

Os diques do Mondego foram construídos há quase meio século e tinham sido dimensionados para uma realidade que já não existe. As cartas de risco hidrológico existiam, mas não estavam integradas nas decisões de planeamento. Os depósitos de água não tinham geradores. As redes móveis e a fibra óptica foram desenhadas para falhas de horas, não de dias. Nada disto era desconhecido. Estava escrito algures num relatório anterior.

O padrão é sempre o mesmo. A catástrofe acontece, cria-se uma comissão, produz-se um relatório e anunciam-se medidas. Passam dois ou três anos. As medidas ficam por implementar porque não há verbas, ou porque mudou o governo, ou porque ninguém verificou.

Fui a Leiria, a Pataias e a Coimbra a seguir à tempestade. Além da destruição e do desespero de quem tudo perdeu numa questão de horas, vi também o custo acumulado de decisões que ninguém tomou, de infraestruturas críticas que ninguém protegeu e de planos que ninguém cumpriu.

Os sucessivos governos produzem documentos onde deveriam produzir capacidade e apresentam a conta aos cidadãos sob a forma de calamidade. Os simulacros não acontecem porque ninguém verifica. As inspeções ficam por fazer porque não há consequências de não as fazer. Os planos existem porque a lei ou a propaganda os exige, não porque alguém os vá cumprir.

A 28 de abril, três meses depois da Kristin, o Governo apresentou o PTRR, Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência. São 22,6 mil milhões de euros, três pilares, 96 medidas. Todas já recomendadas, anunciadas ou prometidas antes. Andamos sempre às voltas no mesmo círculo: catástrofe, diagnóstico, plano, esquecimento. Por isso, a questão de fundo nem sequer é se o plano é bom. A questão é quem responde desta vez se não for cumprido.

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