Sou um assumido crítico das opções políticas e competência técnica, em várias matérias, da equipa política do MECI. Como o já fui de outras, admito, pelo que já não é novidade. Por isso, o que é capaz de ser inédito é que, depois de várias semanas de absoluta confusão em torno dos exames de 1.ª fase do Ensino Secundário (e também das reapreciações, embora com menos impacto mediático), ache que nem tudo pode ser incompetência.
Existiram falhas que, mesmo para quem decidiu entrar a cortar pela orgânica do MECI sem avaliar bem as consequências e, em simultâneo, generalizou um processo de alegada “digitalização” dos exames do Ensino Secundário sem a devida preparação em tempo útil, não se podem explicar apenas na base da falta de competência. Afinal, parte das lideranças actuais, transitaram do passado e têm anos de experiência no “aparelho”. E, no caso dos decisores políticos, por muito que o ministro diga que nem tudo passou por si, há aspectos que são de mero bom senso e não exigem um profundo conhecimento dos mecanismos de avaliação externa dos alunos.
Sublinhe-se que, apesar dos detalhes acerca do número de itens e provas classificadas, em certos momentos de “comunicação pública”, continuamos sem saber como foi o processo de tomada de decisão, por quem passou e com base em que elementos, da generalização da “digitalização” dos exames do Secundário, a partir da experiência de Filosofia no ano lectivo passado.
O MECI mandou instaurar inquéritos às escolas que se atrasaram a enviar exames, mas está a lavar mais branco quem não acautelou coisas tão óbvias como o cálculo dos classificadores necessários para o tempo disponível, a necessidade de fazer um qualquer “contrato” com quem estava disponível, já para não falar da testagem do próprio processo de digitalização das provas e seu carregamento para a plataforma de classificação.
Repito: isto vai além de incompetência, em especial do pessoal político, porque - e chamem-me teorizador de conspirações que não me importo - os maiores danos causados foram à credibilidade do sistema de avaliação externa dos alunos e, por extensão, à confiança na qualidade dos “serviços” públicos que a asseguram. Não me parece um acaso que a primeira reacção tenha sido recorrer a uma consultora externa, nem sequer conhecida pela ligação à Educação, para tentar “remediar” a situação. Assisti ao vivo a um webinar (posteriormente colocado em acesso privado) com uma técnica da Deloitte e o responsável maior pelo EduQA, e aquilo foi demasiado simplista para ser qualquer tipo de solução para o que se estava a passar.
Mas… a porta ficou aberta para uma maior intervenção “externa” num processo de transição digital dos exames que sabemos ser da ordem dos milhões de euros, cortesia do PRR.
E não me parece, de novo, um acaso que um dos principais vultos da tertúlia neo-liberal, que defende uma maior privatização da Educação, tenha surgido no auge da “crise dos exames” (P.S. Clara, jornal Eco, 25 de Julho) a defender uma ainda maior redução do aparelho do MECI, chegando a propor a estratégia de “incendiar a própria casa”, em nome de uma “destruição criativa”, conceito que se esqueceu de atribuir a Schumpeter.
Não… isto não me parece apenas incompetência.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico