Não se mede em graus, mas em direitos. Nos últimos anos, temos assistido a um arrefecimento lento e persistente nos hábitos cívicos que tem corroído as instituições. Não é algo que aconteça do dia para a noite. É um processo de normalização do que antes seria considerado inaceitável. O recuo das democracias liberais e a expansão, em diferentes geografias, de modelos políticos que subordinam a liberdade à autoridade, são o sinal mais evidente de que estamos na iminência de um inverno democrático.Assentes num contrato social baseado em eleições livres, separação de poderes, Estado de Direito, proteção das liberdades individuais, jornalismo livre, respeito pelas minorias, pelo pluralismo cultural, religioso e político, as democracias liberais estão hoje sob pressão.Três em cada quatro pessoas vivem hoje em regimes autocráticos. Ou seja, 75% da população mundial não vive em democracia. São níveis assustadores que não se registavam há quase 50 anos. Mesmo alguns países com democracias consolidadas, como os EUA, enfrentam hoje erosões significativas em indicadores como a liberdade de expressão e a separação de poderes.Os sinais são preocupantes: erosão gradual das garantias institucionais, fragilização dos tribunais, condicionamento da liberdade de expressão, restrições crescentes e ataques à liberdade de imprensa, deslegitimação progressiva da oposição. Todos estes fenómenos são comuns e estão inscritos no manual de instruções de qualquer pretendente a autocrata. O problema é que as democracias não têm sido eficazes a prevenir e a combater os políticos e os partidos que, servindo-se das mesmas liberdades que ela proporciona, a pretendem constranger, diminuir e até derrubar.O declínio das democracias resulta de ausência de respostas concretas a problemas sentidos pela população e da perceção gerada, com ou sem razão, de um sentimento coletivo de injustiça que coloca o chamado povo contra a proclamada elite. Quando a democracia falha em entregar resultados tangíveis, quando perpassa um sentimento de injustiça e de crescente desigualdade, abre-se espaço para correntes populistas que, sob a capa de uma guerra cultural e identitária, prometem ordem e autoridade, ainda que à custa da liberdade. E aos poucos, o que antes se dava como garantido, vai-se perdendo e sem sinais de maior ou melhor resolução dos problemas dos cidadãos. Responder às ameaças resultantes deste inverno democrático, exige mais do que retórica. Implica apresentar soluções sólidas para os problemas com que as pessoas se confrontam, combater desigualdades iníquas, reforçar a credibilidade das instituições para, por essa via, recuperar a confiança nelas, para além de um firme e comprometido esforço na educação cívica e na promoção e defesa dos valores democráticos.Ao Partido Socialista, reunido este fim de semana em Congresso, compete liderar este combate. Ancorado nos valores que o fizeram ser a principal força política do Portugal democrático, o partido da adesão e da integração europeia, o PS tem de se apresentar renovado, com novas soluções e uma nova abordagem para servir um país que apresenta sérios problemas, mas que não é o mesmo do século passado.Espera-se que o Congresso do PS sirva para marcar uma viragem. Não para confortar o partido ou para ajustar contas, mas para o sintonizar com as aspirações e as inquietações dos Portugueses. Com lucidez para reconhecer erros e determinação para fazer diferente. O PS precisa de voltar a ser a alternativa de confiança.