Informática?  Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe

Luís Correia

Professor do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

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Desengane-se desde já o leitor, porque este artigo não é um ataque à informática.  Afinal, sou professor dessa área e adoro o meu trabalho.  O tema deste artigo é a recém-criada Agência para a Investigação e Inovação (AI²) que acaba de anunciar o seu conselho de administração.

Mas recuemos um pouco e recordemos que a Agência é resultado da fusão da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Agência Nacional de Inovação (ANI). Nasce oficialmente no final de 2025 ao abrigo do Decreto-Lei n.º 132/2025 e o que mais se destaca nesta primeira apresentação ao público é a maneira como a Informática aí é (des)tratada.  Neste decreto afirma-se que a organização da referida agência se constitui em duas componentes principais: unidades orgânicas correspondentes a áreas de investigação e desenvolvimento – classificadas de acordo com a classificação internacional FORD, produzida pela OCDE –, e unidades orgânicas correspondentes a domínios estratégicos. As primeiras são focadas na investigação fundamental e as segundas na investigação aplicada.

A decisão de organizar a investigação fundamental de acordo com uma classificação internacional parece assegurar uma certa garantia de atualidade, tipicamente “de acordo com o que melhor se faz pelo mundo fora”.  Porém a classificação FORD mais recente é de 2015, o que em investigação, atualmente, é uma eternidade e isso é bem patente na maneira como a informática se integra nessa orgânica:  aparece integrada nas Ciências Naturais(!) e ainda como uma variante da… Engenharia Eletrotécnica, um enquadramento que demorou anos a ser corrigido junto da FCT, fruto de muita insistência dos departamentos e unidades de investigação em informática das Instituições de Ensino Superior em Portugal.

Infelizmente, a própria União Europeia também não é um bom exemplo, tendo em conta o atraso com que “acordou” para uma das subáreas da Informática, a Inteligência Artificial – o livro branco para a IA foi publicado apenas em 2020, quando a IA já andava há muito nas bocas e nos computadores do mundo. Curiosamente, ao contrário do que é habitual, Portugal adiantou-se à UE neste domínio. Em 2018 a FCT abriu o primeiro concurso de projetos de IA e Ciência de Dados para a Administração Pública (conhecido pela sigla DSAIPA, da designação em inglês).  Apesar do sucesso que teve, pelo impacto em diversos organismos da Administração Pública (AP), acabou por se desvanecer ao longo dos anos, interrompendo um programa de verdadeira modernização da AP, enquanto estimulava também a investigação nacional em Inteligência Artificial.

Agora, com a organização definida para a AI², é toda a área de Informática que é desvalorizada em termos de investigação fundamental.  E não é por, eventualmente, se vir a verificar a estimulação da investigação aplicada em Informática que se compensa a menor importância dada à investigação fundamental nessa área.  A duas vertentes da investigação têm de andar a par. Note-se que três das 10 maiores empresas mundiais são da área de informática e a elas se devem muitos dos avanços teóricos que foram publicados em artigos científicos, ao mesmo tempo em que eram integrados em produtos comerciais de utilização pública.

O país já desperdiçou um passo em frente que deu na informática, em particular na IA, agora dá passos efetivamente atrás ao adotar uma organização da ciência nacional datada de 11 anos.  Em vez de tentarmos continuar a apontar caminhos à UE, estamos a colocar-nos ainda mais atrás.  A UE já está suficientemente atrasada. Basta ver que não há uma única empresa europeia forte na área de informática. Assim, continuaremos a alimentar indústrias estrangeiras, sobretudo norte-americanas, através da compra de equipamentos, software e serviços digitais, do streaming às subscrições dos atuais modelos de IA, agravando a nossa dependência tecnológica e económica. E o mais grave é que esta dependência já não resulta de falta de capacidade, mas de falta de ambição e de visão estratégica.

A partir de hoje, as tabelas de preços afixadas nos postos nacionais passam a refletir este novo equilíbrio entre a folga concedida pela cotação do crude e o controlo orçamental exercido pelo Governo. Para os portugueses, o conselho editorial confirma-se: valeu mesmo a pena esperar por segunda-feira para ir abastecer. Valeu mesmo a pena esperar por segunda-feira para ir abastecer.

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