O debate, o momento actual, é propício à utopia, enquanto resistência, enquanto esperança que nos permita continuar a acreditar que Trump é como a pandemia, um dia vai passar!Ora perante as distopias da incerteza, a utopia política mais próxima pode ser transcontinental, entre a Península e o outro lado do charco, mais próximo. Por isso mesmo, e numa prospectiva a partir do Sul, a partir da análise de Yassine El Yattioui, especialista em diplomacia e inteligência económica, que olha para o ibero-africano, enquanto oportunidade em construção.O argumento de El Yattioui, tem por base o número de falantes de “espanhol”. Com 600 milhões de falantes, o eixo Rabat/Madrid, estende-se para toda a América Latina e Estados Unidos, também. Trata-se, portanto, de um posicionamento de hemisfério, inequívoco. E Marrocos é atlântico, e quer ser atlântico, desde 2020, pela adesão aos Acordos de Abraão e pela apresentação do projeto de construção do gasoduto Tânger-Nigéria, o NMGP.É desta forma que o especialista marroquino, percebe o seu reino no centro da encruzilhada Mediterrâneo/Europa/América, não vendo mais na língua, uma mera herança do colonialismo, mas “um espaço de inscrição estratégica, particularmente fecundo”.A prospectiva raulesca, a partir do Cabo da Roca, é ainda mais abrangente. Somos atlânticos, “portugueses à solta no Brasil” e também temos uma considerável comunidade portuguesa na América do Norte. O que é que falta? Uma consciência mediterrânica! Porquê? Porque geograficamente não somos mediterrânicos, mas geopoliticamente, somos obrigados a sê-lo. É nesse sentido que o contributo português para este debate, deve acrescentar a Argélia à equação. Porquê?Porque a Argélia também quer rasgar o deserto com um gasoduto, no sentido da mesma fonte que o NMGP marroquino. Porque é precisamente do gás argelino que Portugal e Espanha dependem e recebem diariamente, também via gasoduto transmediterrâneo. No caso português, dependemos também do gás nigeriano, que chega liquefeito.Porque organizar um Mundial de Futebol, 2030, com Marrocos e Espanha, é o lúdico sempre necessário e prévio aos grandes negócios, que proporcionam alinhamentos regionais.A utopia, a partir daqui, do inóspito Cabo da Roca, deverá contemplar esta competição magrebina pelo gás nigeriano e contribuir para que ambos os projectos se materializem, o quanto antes, a bem de Sines, e a partir do que uma ligação Tânger-Sines, poderá representar para a produção de hidrogénio verde e a transformação do eixo Argel-Guincho, num bloco euro-atlântico-mediterrânico, alternativo e português! Escreve de acordo com a antiga ortografia