Duckens Nazon já estava sentado no avião, com o cinto apertado, em plena pista do aeroporto de Teerão quando o chefe de gabinete anunciou a má notícia: "saiam todos do avião, a guerra começou, o espaço aéreo está fechado". O jogador do Esteghlal FC, clube da capital iraniana, estava a tentar chegar a Paris para obter um visto para poder competir no Mundial de futebol que este ano se realiza entre Estados Unidos, Canadá e México e no qual o Haiti volta a competir, pela primeira vez em 52 anos.Mas o cancelamento do voo não foi suficiente para Nazon, o melhor marcador da seleção do Haiti, desistir do sonho de marcar pelo menos um golo neste Mundial. De volta a Teerão, de onde muitos outros fugiam para escapar aos ataques dos EUA e de Israel, conseguiu falar por momentos com a família - a mulher, marroquina, e os filhos estavam em Marrocos - a quem pediu para lhe comprarem um bilhete de avião do Azerbaijão para Paris. Entretanto, comprou um eSim e meteu-se num carro com destino a Baku. "No total, passei talvez 20 horas na estrada. Viam-se alguns riscos dos mísseis no céu", contou à Reuters.Parado na fronteira, foi graças ao eSim que conseguiu contactar a embaixada de França, país onde nasceu e cuja nacionalidade também tem, e desbloquear a situação. Dois dias depois de sair às pressas do avião em Teerão, estava dentro de outro avião, com destino a Paris. Dentro de menos de um mês, Nazon e os outros 25 jogadores do Haiti estarão a cumprir o sonho de levar a seleção daquele pequeno país das Caraíbas ao segundo Mundial da sua história. Tal como o jogador do Esteghlal FC, a quase totalidade dos selecionados joga fora do seu país - apenas um joga no campeonato nacional. Mas dois deles jogam na Liga II portuguesa, no Vizela!! E, na verdade, só dez em 26 nasceram no Haiti, sendo os outros oriundos da diáspora em países como França, EUA ou Canadá. Mas o que verdadeiramente surpreende é que ainda haja um campeonato nacional no Haiti, cujos jogos continuam a decorrer com a normalidade possível num país onde a violência entre gangues já causou mais de 1600 mortos só nos últimos três meses, segundo número divulgados pela ONU. País mais pobre do hemisfério ocidental, o Haiti vive atualmente, também segundo as Nações Unidas, "uma das piores crises humanitárias do século XXI". Com a quase totalidade da capital, Port-au-Prince sob domínio dos grupos armados, assassinatos, raptos, violações e ataques a hospitais e escolas tornaram-se parte do dia-a-dia. Milhares de pessoas foram forçadas a fugir das suas casas, enquanto a insegurança alimentar atinge quase metade da população. Após a única revolta de escravos bem-sucedida da história, o Haiti tornou-se independente em 1804, mas a pesada indemnização que aceitou pagar a França para evitar invasões e garantir o comércio arruinou a economia do país. Situado na parte ocidental da ilha de Hispaniola (a parte oriental é a República Dominicana), onde em 1492 Cristóvão Colombo desembarcou nas Américas, o Haiti é muitas vezes descrito como um Estado falhado devido à interminável sucessão de golpes militares, trocas de governo, corrupção endógena, intervenções estrangeiras e longos períodos de ditadura, como a dos Duvalier (o pai, François, ou Papa Doc, e o filho, Jean-Claude, ou Baby Doc). A já frágil situação do país foi agravada em 2010 por um violento sismo de magnitude 7 que, segundo as estimativas do próprio governo haitiano, terá feito entre 200 mil e 300 mil mortos, além de ter destruído edifícios e estradas. Pouco depois, as autoridades locais tiveram de lidar com um surto de cólera, que se acredita ter tido origem nos capacetes azuis nepaleses enviados para o Haiti na sequência do sismo, e que contaminou mais de 800 mil pessoas e matou mais de nove mil, segundo a ONU. Sem presidente desde o assassínio de Jovenel Moïse, em julho de 2021, e com um primeiro-ministro interino, a instabilidade política também explica em parte a violência que se tem espalhado pelo país, sobretudo na capital, controlada em grande parte pela aliança de gangues Viv Ansanm e pelo seu líder, o antigo polícia Jimmy "Barbecue" Chérizier.E nem o futebol escapa à violência destes gangues, com o Viv Ansanm a ter vandalizado o único estádio nacional e, em fevereiro passado incendiado o centro nacional de treinos da FIFA, após confrontos com a polícia. O Ministério da Juventude e do Desporto do Haiti condenou "com firmeza" o ataque e garantiu que o seu papel de apoio à juventude continua inabalável. Quanto aos Grenadiers, a seleção nacional de futebol, afirmou que não seria afetada e que "o espírito de unidade nascido da qualificação histórica para o Mundial de 2026 deve tornar-nos mais fortes perante a adversidade."Ora depois de uma qualificação para o Mundial vista como uma verdadeira proeza, com a equipa nacional obrigada a jogar todos os jogos "em casa" em Curaçao, os 11 milhões de haitianos bem merecem que Nazon e os seus companheiros lhes deem um pouco de alegria futebolística. Para já, é tempo da última fase de preparação, que começa já este domingo, 24 de maio, no sul da Florida, antes da estreia no Mundial frente à Escócia, a 14 de junho. Depois, é continuar a sonhar. "Espero que o orgulho do país brilhe através dos Grenadiers, prontos para hastear bem alto as cores azul e vermelha no maior palco do futebol", disse ao Haitian Times Jean-Marcel Moïse, um adepto haitiano residente em Margate, na Florida. Um raro motivo de união e orgulho nacional para todos os haitianos, dentro e fora do país.