Bem sabemos que, este ano, a silly season começou um pouco mais cedo. O Mundial antecipou a realidade do Verão político e o primeiro-ministro foi ver a bola.Isto é um não-assunto? Não, na minha opinião não é! A ausência, do país, do chefe do Governo cria na população uma síndrome de abandono de funções. Diz-me por onde andas, dir-te-ei como exerces a tua função.Esta mania dos políticos de irem ver o futebol é uma coisa um pouco parola. Compreende-se uma presença institucional numa semi-final ou numa final de um Mundial de Futebol. Mas, francamente, o primeiro-ministro ir ver a selecção portuguesa jogar com o Uzbequistão, a Croácia e perder com a Espanha não é coisa de estadista. Mesmo que seja para servir de amuleto, coisa para a qual, afinal, Luis Montenegro não tem grande jeito. Esperemos que a sua má prestação fique apenas pelo amuleto e não se estenda ao universo institucional.Enquanto o primeiro-ministro via a bola, os problemas, cá pelo burgo, iam nascendo como cogumelos. Os exames conheciam a maior trapalhada de sempre, dinamitando, totalmente, a credibilidade do ministro Fernando Alexandre. Mas como é possível alguém pensar, num país com um perfil como nosso, que vai ser possível digitalizar 340.382 provas escritas de 166.339 alunos sem que isso dê uma enorme confusão? Querem digitalizar, digitalizem tudo, ponham os alunos a fazer exames em computador e os professores a corrigirem digitalmente. E façam as coisas faseadamente. Moral desta história uma enorme confusão, para os professores sem acesso à plataforma digital e para os alunos e pais sem saberem o que fazer das férias e da vida. Caramba, reformas estruturais sim, mas feitas com pés e cabeça.Quanto ao ministro da Reforma Administrativa tem estado num silêncio sepulcral! Era bem vindo neste momento difícil... E o primeiro-ministro, é claro, a ver a bola...Entretanto, em pleno século XXI a região de Almada, mesmo ali ao lado do Tejo, deixava milhares de cidadãos sem água. Nesta coisa de autarquias também há o bom e o mau. Perguntem ao Isaltino Morais se a água falta em Oeiras? Mas em Almada, numa expressão cavaquista que ficou célebre, reina a má moeda. A presidente da Câmara, Inês de Medeiros, no seu terceiro mandato não fez o trabalho de casa. Há falta de estações elevatórias. Há poucos furos. O sistema de colectores de distribuição de água está a colapsar. E está a colapsar porque Inês de Medeiros esteve anos a dormir na forma e não fez os investimentos que devia.Salvou a honra do convento a ministra do Ambiente que, numa operação de toque e foge, anunciou a construção de mais dois furos. Para calar o maralhal, que, provavelmente, só vai deixar de ter faltas de água no Inverno quando chover!Entretanto o primeiro-ministro esteve a ver a bola.Isto, quando a coisa mete empreiteiros, é sempre uma complicação. Que o diga Luís Neves, o ministro da Administração Interna, que chamou para fazer umas obras numa propriedade privada sua, em Odemira, o mesmo empreiteiro que fez obras na Polícia Judiciária, quando Luís Neves era o director. Imprudência! Com as facturas entregues aguardemos, então, os desenvolvimentos. Pois, neste caso, Luís Montenegro teve sorte de estar a ver a bola.Depois sabem, caros leitores, já quase não me lembro do nome da ministra da Justiça. Fraca me- mória a minha. Sei que é filha de José Miguel Júdice e é a única referência de que me recordo. De facto, por mais que tente não me lembro de nada que tenha saído do seu gabinete!Não, isto não é só a silly season. E, também, o futebol não explica tudo. De dia para dia o Governo tem vindo a perder fôlego. Num país como o nosso, onde abundam os problemas sociais, onde o Estado não funciona ou funciona mal, onde a carestia da vida aumenta estrangulando as famílias mais frágeis, quem concorre a eleições para o cargo de primeiro-ministro já sabe o que o espera. É um cargo exigente sem tempo e disponiblidade para futebóis. Isto, se exercer a sua função com entrega e dedicação. Assumir um ar blasé e ir à bola só cria na população a ideia de que há no ar uma certa vacuidade governamental.