António Lobo Antunes (1942-2026)
António Lobo Antunes (1942-2026)Foto: Paulo Spranger/Global Imagens

Fim para uma longa viagem com António Lobo Antunes

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Tive a sorte de conhecer o António durante anos de conversas para fazer o retrato do escritor e da obra num livro para que me convidou enquanto autor, lugar em que milhares de portugueses seus leitores gostariam de ter estado. Digo-o, porque ao longo de tantos anos de convívio foram centenas de casos que observei nessa busca por minutos de uma troca de palavras entre as que ele escrevia num autógrafo.

Os leitores adoravam-no, leram-no, queriam ouvi-lo e até se sentiam de imediato seus amigos e correspondidos nesse amor. Gostava dessas enormes filas a que tinha direito desde que se tornara o primeiro revolucionário da literatura portuguesa com Memória de Elefante em 1979, antes de todos os outros a revelarem, num culto reforçado no mesmo ano por Os Cus de Judas. A partir desse par de livros, a obra prosseguiu numa mesma temática de sacudir memórias da guerra colonial e tanto o repetiu que se transformou no autor principal sobre a violência no manter do império à custa das armas.

António Lobo Antunes (1942-2026).
António Lobo Antunes (1942-2026).Paulo Spranger / Arquivo DN

Lembro-me de o ver a tentar negar esse assunto literário como predominante na obra perante Eduardo Lourenço e de querer afastar-se um pouco de África. Afinal, queria deixar uma visão mais abrangente da sua arte, que foi tentando em romances excecionais como, por exemplo, Sôbolos Rios Que Vão, que descolassem do seu braço da escrita a tatuagem dos conflitos armados para os que habitam o interior do ser humano. Talvez pela formação psiquiátrica, talvez pelo cancro que o assustou, talvez por ser um apaixonado pelo mundo de portugueses vulgares que lhe preenchiam as fantasias, talvez instigado pelos muitos prémios que cá só ele recebeu… De certeza pelo Nobel da Literatura que obsessivamente perseguiu.

Agora, surpreendidos pela morte que acordou todos ontem de uma ausência de alguns anos nas novidades literárias, haverá quem o vá ler novamente. Sim, o dia de luto nacional é uma justa homenagem de um país em que a Cultura é decoração para governantes e elites, mas será a (re)leitura das suas obras que lhe daria aquele prazer que tinha quando, às escondidas, se deliciava a ver pessoas com os seus livros nas mãos. Queria-os lidos por uns 500 anos pelo menos, dois mil se possível, tanto que quando via jovens a lê-lo ficava com a certeza de que teria leitores para mais umas décadas. A grande espinha que lhe ficou atravessada na garganta foi o facto de as suas crónicas começarem a ter mais leitura do que os romances, nada de que não fosse culpado, pois eram magistrais.

De António Lobo Antunes há uma verdade que deve ficar registada: era o mais verdadeiro escritor que os portugueses tiveram em liberdade. Alguém que só vivia para a escrita; fora da ficção não existia realidade que lhe merecesse viver.

Autor de ‘Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes’

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