Esta é uma frase que nenhum pai - são - vai dizer a um filho durante a sua vida: “Vai, filho! Fala com todos os estranhos que encontrares na rua. Sem medos!” Não se fala com estranhos; não se ajudam adultos (um adulto NUNCA precisa da ajuda de uma criança desconhecida); não se come sal ou açúcar à colher; não se põe as mãos no fogo; não se permite a compra de álcool antes dos 18; não se vai sozinho para um centro comercial quando ainda não se chegou à adolescência; … na verdade, os pais hoje nem deixam os filhos ir sozinhos para a escola, quanto mais para outros programas. Tudo isto parece sensato, verdade? Óbvio, até.É precisamente por isto ser tão compreensível, que não se entende a reação de uma parte da sociedade à restrição de acesso às redes sociais por criaturas que ainda não têm o cérebro, sequer, a meio da sua formação total.Vamos por partes, como já é habitual: o córtex pré-frontal, região responsável pela nossa regulação emocional, começa a amadurecer a partir dos 3 a 4 anos de idade, mas não fica completamente maduro até aos 25 anos. Já percebeu, caro leitor, por que trouxe este assunto?Enquanto, por um lado, estamos todos de acordo quanto aos impactos que as redes sociais têm no cérebro, no desenvolvimento de competências sociais e no tempo que agora decidimos não passar uns com os outros - aposto consigo que está a ler este texto num telefone, e possivelmente porque o viu numa rede social -, adoramos negar uma evidência: as redes sociais fazem mal. E se fazem mal aos adultos - a procura constante por adrenalina e dopamina está a criar uma nova geração de ciberdependentes -, imagine o que fazem a cérebros ainda em formação.Uma criança, um adolescente, não tem todos os alertas ativos. Não compreende o perigo de estar ligado numa rede onde todos parecem amigos, mas onde se escondem predadores sexuais, ladrões, pessoas mal-intencionadas. Uma criança, um adolescente, não pode ser deixado sozinho com o seu telefone ou o seu computador, de portas abertas para o mundo, na mesma medida em que não os deixamos ir para um bar, uma discoteca ou um centro comercial sozinhos. Porquê? Porque é perigoso. Lá está.A falsa sensação de segurança de ter o seu filho no quarto, mas totalmente exposto ao mundo sem qualquer controlo, está a provocar danos imensos na saúde mental dos mais novos, além de ser terreno fértil para quem lhes quer, intencionalmente, fazer mal. Não perceber isso é não perceber nada do que se passa atualmente no mundo. Logo, tal como em tempos foi preciso intervir na venda de comida processada nas escolas, na limitação de sal no pão ou na escolaridade obrigatória - porque causavam problemas de Saúde Pública! -, parece-me óbvio que era preciso intervir nesta questão. Que é de Saúde Pública. Que é séria e que é escandalosamente ignorada enquanto adolescentes continuam a sofrer profundamente.Restringir a utilização de redes sociais a menores de 16 anos parece uma medida repressora? Talvez. Mas talvez nos devêssemos chocar mais com o aumento do bullying, dos problemas mentais, da violência no namoro e da incapacidade de os mais novos lidarem com o mundo real.