O comunicado do PCP sobre a morte de Carlos Brito é de uma assustadora, arrepiante e perversa frieza. Difícil encontrar tanta falta de empatia e implacabilidade em relação a um dos símbolos maiores da história da resistência e do parlamentarismo português. Durante o salazarismo esteve preso oito anos, foi ferozmente espancado, humilhado e torturado, fugiu do Aljube e durante uma década viveu na clandestinidade. Após a revolução foi líder parlamentar durante quinze anos e um dos mais próximos de Cunhal.Carlos Brito rompeu com o PCP setenta anos depois de ter começado a militar. Não por ter deixado de ser comunista, mas por ter deixado de acreditar na insistência do Partido numa ortodoxia soviética que pouco ou nada já dizia ao futuro. O que admira não é o comunicado, outros no passado foram no mesmo sentido, mas a violência sectária de pessoas fanáticas e cegas de uma verdade que julgam carregar. Não há um pingo de questionamento, há sim um clima de seita, uma vontade perpétua de clandestinidade, de necessidade de viver fechados numa superioridade moral que mascara uma tenaz arrogância.. Não conheço nenhum comunista que ocupe ou tenha ocupado lugares na direção do Partido que seja casado ou casada com alguém que não seja comunista. Não é possível tal enormidade. O Partido está à frente de tudo. Determina a família, as ideias, os projetos e as ambições. Quando se está, o Partido é a rede que não deixa ninguém desamparado. Quando se deixa de estar, corta-se o vínculo e morre-se em vida. Até ao dia em que já não haja mais ninguém que escreva comunicados.